sábado, 25 de setembro de 2021
Mané está dirigindo na av. paulista, com o semblante carregado e de mau humor. Está um trânsito infernal, parece que a pandemia acabou, sqn. Ele está saindo do consultório do especialista em mão que, há poucos minutos atrás, lhe disse: “não faz essa cara, você devia ficar feliz que tem cura, quatro horinhas no hospital e você sai com a mão nova”. Diante de um Mané pasmado ele continua: “laparoscopia, um ou dois pontinhos, depois de um mês você nem mais vai lembrar que tinha síndrome do túnel do carpo”. No trânsito, no corredor central da avenida, Mané se vê cercado de motoboys por todos os lados. Desvia daqui, esterça dali, Mané vê um iFood se aproximando em alta velocidade pela lateral direita e, temendo ser abalroado ou abalroar, ele diminui a velocidade de forma a não emparelhar com o carro ao lado, deixando o maluco, que buzinava alucinado, ultrapassa-lo mais ou menos em segurança. Poucos metros adiante, o farol fecha e Mané para ao lado do sujeito. O motoboy olha pra ele e sorri: “valeu, presidente, não são tudo os que facilita pra nóis. As pessoa passa com a limosine achando que é dona da rua, raramente aparece alguém que alivia, valeu mermo” (sic). Mané, que estava com a paciência mais apertada que o seu tunel do carpo, respondeu, enquanto já abria o farol: não se iluda, não fiz isso por você, fiz pelo meu carro e por mim, vai pela sombra. E acelerou virando à esquerda. Por sorte o motoboy seguiu em frente. 23/9/21
Mané est seul à la maison. Depuis la pandémie, c'est une situation rare et inhabituelle et Milu, le chien, pense aussi car, dès qu'ils se retrouvent seuls, il fixe son regard profond sur Mané et n'a même pas besoin de parler pour que Mané comprenne son étonnement. Anuar est allée travailler, Samira est chez elle en train de travailler, Salma est allée faire quelque chose dans la rue et a recommandé à Mané de profiter de sa solitude pour faire ce qu'elle veut, lire, regarder cette série qu'elle ne veut pas voir, jouer avec le chien, appeler quelqu'un ou travailler. Mané se souvint alors qu'il devait travailler. Alors il fit la vaisselle, lut le dernier chapitre du livre qu'il lisait et alluma la télé. Au cours de ce voyage, il a jeté un œil à son e-mail et à WhatsApp et, comme tout était calme, il a appuyé sur play. A la minute où Michael C. Hall est apparu à l'écran, Mané a reçu deux WhatsApp. Elle s'arrêta et répondit poliment. Pendant ce temps, l'application e-mail a notifié l'arrivée de six nouveaux messages, sa mère a appelé et le chien est venu demander un câlin. Mané est allé au frigo et a mangé une dizaine de tomates cerises et un morceau d'ananas. il a essayé de regarder Netflix mais le téléphone n'arrêtait pas de gazouiller. Mané crut devoir faire quelque chose, éteignit la télé, alla dans sa chambre choisir quel livre il lirait ensuite et retourna dans le salon en ouvrant à contrecœur le couvercle de son ordinateur. Il a répondu à un e-mail, a pris le relevé bancaire, et juste au moment où il était sur le point de commencer à se sentir vide, Salma est arrivée et, de la cuisine, a crié : Tu as faim? Dois-je faire une salade pour le déjeuner? Pendant que Salma organisait les choses, Mané s'est assis pour faire ce rapport et a découvert qu'il ne sait pas écrire en français. Puis il est allé dans la cuisine et a épluché une mangue pour enrichir la salade. Mané aime les saveurs douces-amères. 21/9/21
Mané já foi um grande comprador de fruta. De olhar, sabia se o abacaxi era doce, se a melancia não estava farinhenta, o melão doce e a manga no ponto. Não tinha erro. Ia todo domingo à feira e voltava com produtos de primeira magnitude. Até abacate sabia escolher. Além disso, Mané era exímio descascador de abacaxis, no sentido literal da palavra, sendo que a técnica envolvia segurar o abacaxi pela coroa, remover com maestria a bundinha e em seguida fazer cortes longitudinais na casca, não muito fundo que consumisse a fruta, nem muito raso que deixasse intactos aqueles pontinhos pretos. Depois, levemente, removia as últimas imperfeições, fatiava e oferecia para a família. Com o tempo, começaram a ficar com preguiça de feira. A balbúrdia, o calor, a sujeira, o cheiro de peixe, tudo isso foi ficando penoso e eles passaram a frequentar dois sacolões perto de casa. A qualidade das frutas as vezes deixa a desejar mas, tem ar condicionado e da pra fazer feira e supermercado ao mesmo tempo. No Pomar da Terra vendem um abacaxi já descascado a 8 reais. Doce, gelado, uma delícia, Mané sempre leva. Já no Natural da Terra, o mesmo abacaxi custa 14. Mané ficou indignado e resolveu comprar o abacaxi com casca, que saia por 8,59. E Mané lá tem medo de descascar abacaxis? Mané ponderou um pouco e escolheu um abacaxi que lhe pareceu bom. Em casa, ao iniciar o processo de descasque e agarrar a coroa, esta se soltou e caiu no chão. Foi um sufoco tirá-la da boca do Milu e assim, a técnica de Mané ficou totalmente comprometida. Onde ele ia agarrar para os cortes longitudinais? Foi horrível. Salma olhava para o lado disfarçadamente enquanto Mané tentava descascar o abacaxi sem perder os dedos. Finalmente conseguiu mas ficou cheio daqueles pontinhos pretos, no entanto, constatou Mané ao comer uma tranche, pelo menos estava doce. Ficar velho é bom mas é uma merda. 19/09/21
Anuar voltou ao trabalho. É o único membro da família, fora Salma que atende uma ou outra criança em consultório, a voltar a suas atividades profissionais presenciais. Quando se aproximava da entrada, o vigia e o cara que mede a temperatura das pessoas, bateram palmas e lhe deram um abraço de longe. Esse Mané, que vai ficar sozinho e perdido durante as manhãs, foi acometido por um pequeno lacrimejar de olhos mas recuperou-se depressa. 16/9/21
Mané demorou alguns anos pra entender qual era sua turma. Expulso do Egito ainda bebê com a família, correram para a Itália pra conseguir a cidadania do bisavô e, depois de algumas conjecturas, vieram para o Brasil. Criança, falando português na rua e francês em casa, tinha dificuldade de explicar tantas nacionalidades e línguas. A avó falava com ele em árabe, a mãe em francês e ele respondia em português. Italiano, que era a língua do passaporte, ninguém falava. Isso causou sérias crises de identidade para Mané, que não conseguia se fixar em nenhuma nacionalidade tanto que, até hoje, depois de mais de 63 anos no Brasil, mantém a documentação de italiano residente, nascido num reino tão tão distante, a República Árabe do Egito. Mané não tem nacionalidade brasileira, nunca quis. Não vota, não pode se eleger e não pode trabalhar no Banco do Brasil. Em compensação, dono de uma nacionalidade italiana e reservista dos carabinieri, não passou mais do que noventa dias de sua vida naquele país, grande parte desses dias como um bebê de colo quando fugiam do Egito. E mais, por quais cargas d’água a família tem como língua mãe o francês? No entanto, ao longo dos anos Mané começou a sentir falta de uma coisa que não existiu pra ele. Mané às vezes se pega sentindo saudades da vida no Egito, a vida que nunca teve. Certa vez teve um jogo de futebol entre Brasil e Egito. Uma daquelas seleções brasileiras que empolgavam com Rivaldo, Ronaldo. O Egito levou uma surra homérica e Mané que não liga para futebol, sofreu muito com a dor de seus compatriotas, os egípcios. Mané se preocupa com a pandemia no Egito, tão pouco anunciada por aqui, como se preocupou com a primavera árabe, aquela que terminou num inverno islâmico. A parte odiosa, a da expulsão e da raiva dos judeus, Mané oblitera, vamos fazer de conta que não aconteceu, que foi um desatino coletivo, como o que anda acontecendo por aqui e, na verdade, os egípcios amam os judeus, Mané tem certeza. Mané queria ter ficado no Egito, passar as tardes de sábado no delta do Rio Nilo, dar um esticada até Gize e descansar à sombra de Queops, Quefren e Miquerinos, fazer um afago na esfinge. Tanto que anos atrás, quando Samira fez um curso de tatuagem e precisava de uma pele pra treinar, Mané concordou em fornecer um pedacinho do seu braço. E o que vc quer tatuar paiê? Tatua isso aqui, Mané respondeu. Em hebraico? Sim, hebraico! E o que está escrito em hebraico? Está escrito: totseret mitsraim, made in egypt, feito no Egito. Genial, pai, disse Samira. E pôs as mãos à obra.13/9/21
Pela manhã Mané ligou pra mãe pra ir tomar a terceira dose. Ela perguntou se dava pra levar uma amiga dela e o marido que também eram elegíveis e Mané disse, claro que sim. Mané saiu de casa e foi até a da mãe. Do MASP ele ligou e falou que podiam descer. Com todos embarcados Mané fez o check list de documentos e partiram para o drivethru do clube paulistano que fica lá perto. Enquanto dirigia e se divertia com a conversa dos velhinhos Mané se deu conta que, contando com ele, viajavam ali naquele carro quase 350 anos de vida. Que responsabilidade, hein?13/9/21
Mané está numa excursão pelo deserto do Sinai. O ano é 1976 e o grupo acaba de descer do local onde Moisés recebeu os dez mandamentos depois de visitar o que restou da sarça ardente que está conservada numa cúpula de vidro, acredite se quiser. Estão num caminhão adaptado para carregar gente e o guia está lá na frente gritando as instruções sobre a próxima atividade. Eles vão almoçar comida típica numa aldeia beduína onde as pessoas só falam árabe e muito pouco de inglês. O guia pede que o grupo de jovens seja respeitoso, que não façam peraltices e que se comportem como uma visita pouco íntima. Nada de se afastar do grupo e ficar de olho nos dois seguranças que viajavam com eles para qualquer eventualidade. Tenso, mas o grupo de jovens não estava nem aí e o almoço, pão pita e schwarma preparados em pedras quentes, transcorreu de forma tranquila. Súbito, escuta-se uma comoção ali adiante, perto de uns pequenos rochedos. Todos, liderados pelos dois seguranças armados de metralhadoras UZI, correm na direção de onde vieram os gritos. Atrás das pedras eles se deparam com dois membros do grupo, uma menina carioca, loira e gordinha e um uruguaio que era o “enfant terrible” do grupo, sendo ameaçados por um beduíno armado com uma daquelas adagas árabes curvas. Num cercado, sete dromedários observavam a cena impassíveis. Tentando acalmar a situação os seguranças perguntaram o que acontecia e o beduíno injuriado contou que o uruguaio tinha lhe vendido a menina carioca e não queria entregar. Chamaram o chefe da aldeia e ele confirmou que o menino tinha concordado em vender a gordinha carioca em troca de sete dromedários, que tinha testemunhas e que só restava entregar a garota. A confusão só fazia aumentar, os beduínos não aceitavam a desculpa de que o rapaz era desmiolado e que tudo tinha sido um mal entendido. Os seguranças então nos orientaram a recuar devagar em direção ao caminhão enquanto eles nos davam cobertura, metralhadora em punho. Mané sugeriu que, ao invés de brigar, oferecessem dez dromedários para recomprar a menina mas mandaram-no calar a boca. Com todos no caminhão, o motorista deu a partida no motor e, sob gritos, ameaças e protestos dos beduínos, fugiram de lá em alta velocidade. Nas horas que se seguiram, houve uma assembleia para decidir o que fazer com o uruguaio. Choveram propostas. Alguns sugeriam enforcamento enquanto outros achavam melhor entregá-lo aos beduínos. Depois da reprimenda, mais relaxados e fora de perigo, houve uma discussão sobre o preço da venda, os sete dromedários, e Mané, oriundo daquelas paragens, argumentou que sete era um número muito alto, o dromedário é um bicho valorizado no Egito. A garota carioca começou a chorar, disse que não deviam brincar com aquilo, que todos tinham corrido risco de vida. Dias mais tarde, no Kibutz em Israel, Mané conversando com a carioca que estava bem mais relaxada, disse que o tal uruguaio era uma besta, que se a oferta do beduíno tivesse sido pra ele, Mané, teria pedido ao menos setenta dromedários e aí nenhum problema aconteceria porque quem iria aceitar pagar esse preço por ela? 11/9/21
O sujeito com quem Mané desfilava suas arrobas pela manhã no parque Villa Lobos antes da pandemia se encheu de tudo e resolveu passar uma temporada com os seus na cidadezinha de origem de sua família, um rincão perdido no coração do continente Europeu. Do mesmo jeito que Mané trabalha de casa, ele também trabalha da nova casa dele, tem que prestar atenção ao "confuso" horário mas, quem se importa com isso? A qualidade de vida melhorou consideravelmente, ele conta. Ao invés do Villa Lobos, passeios de bicicleta em volta do lago e, ao invés do trânsito da marginal no final da tarde: "prego signorina, potrebbe farsi da parte così posso attraversare questo vicolo?" Mané está feliz por ele. Aí abaixo vocês podem observar a paisagem da janela lateral do seu quarto de dormir, a Suíça está logo ali. Enquanto isso, Mané fica com a paisagem dele. 10/9/21
Mané sonhou que estava de carro no Rio de Janeiro em uma viagem com Anuar ainda bebê e um primo. O primo e Mané têm a aparência atual, só Anuar ainda é bebê, idade indefinida. Estão no meio do trânsito e Anuar manifesta vontade de fazer cocô. Mané não sabe direito quando mas nesse momento Anuar já fez cocô na fralda e agora Mané tem que achar um lugar para limpa-lo. Ele estaciona na frente de um bar e pergunta se dá pra usar o banheiro mas o sujeito diz que só se for consumir alguma coisa e Mané vai embora furioso. Entra no carro, o primo reclama do cheiro e Mané diz pra ele abrir a janela. Para na frente de um outro bar e o dono permite que ele use o banheiro e pede pra ele não deixar sujeira. Ele volta pra pegar Anuar mas o seu carro agora virou uma moto e está com o pneu da frente murcho. O primo está coçando a barriga e Anuar ainda está na cadeirinha apesar de não ter mais carro, só uma moto. Mané, então, sobe na moto e, subitamente, acorda.No café da manhã Mané pede que Salma interprete o sonho mas ela se nega dizendo que Mané reclama de suas interpretações e diz que ela está falando besteira. Então Mané optou por contar o sonho aqui neste divã. 07/9/21
Com o fim das noites frias, as padarias pararam de preparar sopas para viagem e aquele problema, “o que vamos jantar hoje à noite?”, voltou com força. Outra coisa que Mané notou foi que a garota da padaria que lhe preparava as marmitas, agora anda sorumbática pelo estabelecimento e quando Mané chega pra comprar um pãozinho ou tomar um café, ela que antes o recebia com um sorriso luminoso, apenas acena tristemente com a cabeça. Quando Mané punha o pé no local, ela logo falava animada: “boa noite, amor, posso lhe dar uma canja hoje?”, e Mané perguntava do sabor que tinha a sopa e eles riam e conversavam sobre o queijo ralado e crutons, enfim, uma carga de cerotoninas para enfrentar o frio e a pandemia. Até confusão com Salma a moça arranjou mas, enfim, isso são águas passadas. Voltando pra casa Mané contou sobre a tristeza da moça e Salma lhe disse que ele poderia ir lá consola-la à noite pois ela iria com Samira jantar na casa da mãe. Mané consultou Anuar e este topou ir mais tarde comer um misto quente na padaria. Depois do banho eles caminharam por uma quadra e chegaram à padaria que estava às moscas. A garota que o chama de “amor” estava encostada no balcão e aparentava tédio profundo. Ao pisar no local Mané viu o rosto dela se iluminar: “oi amor, está precisando de alguma coisa”? Sentando à mesa ele disse que queria um misto quente pra ele, um frio para Anuar, uma malzbier e uma coca. A moça, com o rosto afogueado, falou que ia trazer as bebidas e iria ela mesma pilotar a chapa para esquentar o misto de Mané. Afastou o chapeiro com vigor e preparou um misto bem caprichado. Deu a volta no balcão, pegou os pratos que ela mesma montou e levou à mesa de Mané. Ela estava tão feliz qye Mané quase pensou em convida-la a se sentar mas a conversa de Anuar por sorte lhe desviou a atenção do possível desvario. Acabaram de comer e a moça continuava ali de pé olhando com felicidade para a mesa deles. Mané pediu a conta e ela lamentou que ele não queria mais nada então Mané pediu queijo fatiado e foi pagar a conta. Despediu-se da moça e perguntou se, no caso do frio voltar, haveria sopa novamente e ela: “claro, amor, no primeiro frio, vai ter canja aqui pra você”. Antes de sair entregou-lhe uma gorjeta bem gorda e, por trás da máscara, ele viu que ela lhe sorria e que os seus olhos de ébano brilhavam de felicidade. 06/9/21
Nos últimos dois meses chegaram à casa de Mané aproximadamente 10 multas de trânsito, a primeira datada de fevereiro de 2020, o que significa que Mané já perdeu a CNH pelo menos duas vezes. Tem duas multas de celular e todas as outras por excesso de velocidade nas ruas perto da casa da mãe dele flagrado a espantosos 48km por hora. Mané passou três dessas multas para a própria mãe, 87, que costuma roubar o carro dele (caso tenha alguém do detran lendo isso aqui), para se vingar da época em que ele era adolescente e roubava o carro dela. Ela pega sua bengala, surrupia a chave dele e sai acelerando pelas ruas da Bela Vista. Mané tem certeza que foi ela que tomou todas as multas, inclusive as do celular, porque ela é uma velhinha irresponsável. O fato é que Mané tem tentado pagar essas multas mas não há cobrança para elas. Mané também tem esperado a cartinha do detran solicitando a devolução do documento mas também não chega nada. Então, o que Mané vai fazer é aplicar um corretivo na sua mãe, repetir uma frase que ela lhe disse há 50 anos, “da próxima vez que você roubar o carro eu vou te botar a polícia atrás”, e mais nada. Mané vai ficar à espera de um milagre. 05/9/21
Mané acessou o seu e-mail e deparou-se com uma mensagem perturbadora, praticamente uma ameaça. Tinha que liberar espaço no Gmail mas Mané lembra que, quando abriu essa conta em 2005, o mote deles era "nunca mais apague seus emails por falta de espaço". Alguma coisa mudou neste período e passou despercebido para Mané que então, começou a seguir instruções para liberar o espaço e não ser castigado com o mármore do inferno. Mané apagou uns e-mails com vídeos e fotos que tinha visto pela última vez em 2006 mas o ponteiro não se mexeu. Começou então a apagar mensagens do ano de 2005 mas parou porque ficou com medo de perder algo que alguma vez lhe foi importante. Ele fechou e abriu o aplicativo mas a situação não mudou. Mané ficou olhando pra tela pensando no que fazer e teve a ideia de apagar todos os e-mails de quando jogava Farmville. O ponteiro se moveu visivelmente. Depois, Mané teve a ideia de apagar emails de pessoas mortas. Lembrou de oito mortos mas dois ele não apagou porque ainda estavam vivos pra ele. O ponteiro baixou mais um pouco. Depois Mané pensou em apagar emails de pessoas com quem ele não se relacionava mais. Conseguiu achar 32 nomes de gente que ele não gosta mais, além de 14 que ele gosta mas não fala ou escreve há 10 anos. Apagou os oito piores e o ponteiro nem tchum. Foi em frente e apagou mais 24 desafetos ou quase. Apagou também os 14 últimos e ao conferir o ponteiro, viu que tinha baixado bastante. Mané passou duas horas repassando sua vida eletrônica e apagou mais de 12.000 e-mails e arquivos e, finalmente, liberou espaço suficiente para manter a sua conta. O processo deixou Mané meio depressivo, com a impressão que nãoo restava muito do seu passado, além do fato de que algumas das pessoas eliminadas, Mané eliminou mesmo, pra sempre. Mané achou tudo muito penoso e cansativo e da próxima vez, ao invés de apagar, vai comprar mais espaço. 04/9/21
Na virada do século XX, Mané escrevia crônicas numa revista judaica. Crônicas de verdade, cinco mil toques sem espaço, não essas coisinhas que hoje se vê por aqui. Em 2001, ele cismou de publicar um livro, levou suas crônicas para um editor deprimido que todo mundo conhece e que fôra seu amigo na adolescência. Aquele foi o primeiro não que Mané levou na qualidade de escritor. E o último. Mané optou por não levar mais negativas e também por fazer uma vaquinha pra bancar a edição do livro. Mané levantou 65% do valor e o resto bancou ele mesmo. Um outro amigo fez a arte gráfica e, uma pessoa de seu relacionamento que participou com metade dos 65%, exigiu apenas que Mané lhe desse 100 exemplares dos 2000 que iam ser impressos. Mané fez isso com prazer mas ficou curioso com a exigência e perguntou o que ia fazer com aquilo? O amigo respondeu que ia guardar e vender quando Mané ficasse famoso e a edição ficasse esgotada. Bem, a história está aí pra provar que o sujeito fez um péssimo investimento, verdade que a edição esgotou, Mané depois publicou mais dois livros, também esgotados, mas, ficou faltando o detalhe de ficar famoso. Todo mundo sabe que Mané desistiu de ser escritor, pelo menos no sentido amplo da palavra, continuou a fazer o seu trabalho na área financeira e, claro, continuou escrevendo para suprir sua necessidade de escrever. Por sorte a notoriedade nunca foi seu objetivo porque no outro dia, Mané ousou se enfiar num sebo e se deparou com uma prateleira cheia de exemplares do seu primeiro livro, aquele financiado pelo empresário amigo. Mané teve a pachorra de contar quantos eram e achou 98. Cabreiro, Mané foi ao dono do sebo, seu conhecido. O sujeito descreveu o vendedor e Mané reconheceu o amigo. Disse que tinha comprado 100 exemplares no meio da pandemia e tinha vendido dois que, inclusive, "estavam autografados pelo senhor". Mané riu e disse que naquele lote tinha 30 exemplares autografados e o dono do sebo rejubilou-se dizendo que "autografados têm mais valor" e depois de um segundo continuou, "qualquer que seja o escritor". Mané fez ouvidos moucos ao último comentário e a pedido do moço, passou o resto da tarde autografando os 70 exemplares remanescentes. Foi bom porque Mané lembrou das noites de lançamento dos livros quando Salma teve que fazer uma salmoura de água quente na sua mão que doía muito depois de ter dado duas centenas de autógrafos. Mané ligou para o amigo e contou a ele o que tinha acontecido e ele se desculpou constrangido mas, "estava faltando espaço, sabe como é". Mané disse que não estava bravo, pelo contrário, os livros iam circular mas, se ele tivesse avisado, Mané os teria comprado por mais que os dois reais por livro que ele tinha conseguido. E mais, disse Mané, ele vendeu dois exemplares autografados por 20 reais cada, 900% de lucro. Silêncio. E Mané completou: "eu autografei todos os livros pro cara, parece que assinados tem mais valor". Eles riram, perguntaram como iam indo, família, filhos, vamos nos falar, abração. 2/9/21
Segundo Salma, mantemos um laço erótico vitalício com as pessoas com as quais algum dia tivemos um relacionamento amoroso. O que quase equivale dizer que se nós nos apaixonamos por alguém alguma vez na vida e esse relacionamento termina, nós corremos o risco permanente de nos envolver novamente com essa pessoa, caso essa oportunidade apareça. Por isso, continua Salma, é que vemos muitos casos de pessoas que, depois de uma separação, acabam reencontrando e reatando laços com amores do passado. Laços eróticos. Veja você, Salma prossegue, eu sei que você tem aí no Facebook, contato com todas, sim, todas as suas ex namoradas, casos, amásias, xodós e etc. Ok, todas, não, menos aquela que faleceu ainda jovem, já sei, mas, viu como você fala dela?, eu sei a história toda, que foi sua última namorada antes de mim, bla, bla, bla, isso nada mais é do que laço erótico e as vivas, com quem você fala de tempos em tempos, nada mais são do que uma reserva de segurança, vai que! Eu exagerando?, Salma protesta, até aquela menina que você namorou quando tinha dez anos, está aí no seu Facebook. Vê se isto é namoro. Você conta que vocês nem um beijo se deram mas aí está, você sempre tem uma história terna pra contar, até uma crônica dedicou a ela. E ela lá, reservadinha no Facebook. O que? Claro que não é por isso que não tenho Facebook! Não precisa de Facebook pra manter laços eróticos, tem WhatsApp, email e antes da pandemia, dava até pra ir tomar café com o laço erótico. Se eu já fui? O assunto aqui é sobre você e essa mulherada, que tanto assunto você tem com essas ex? Ah, tá, nem todas são ex, ah, não importa, você viu que bebezinha linda? Como assim quem é? É a neta do, ahn, de, do, Oi? É, vai! Isso mesmo, do meu último laço erótico. 31/8/21
Céticos e incrédulos como Mané, pensem outra vez. Esses dias nasceu a filha de Halim, sobrinho de Mané. Poucos dias depois da bebezinha nascer, Mané foi lá de visita e descobriu que a pessoa que vinha trabalhar para ajudar nas coisas era a mesma pessoa que cuidava da Dona Faiga, já falecida, avó de Halim por parte de pai, sogra da sua irmã. Mané lembrou que a moça, durante sua gestão como cuidadora, tinha aprendido a produzir o doce predileto de Mané, a delícia das delícias, a famosa torta de ricota da D.Faiga. Brincando, enquanto segurava a petiz no colo, Mané pediu à mulher de Halim que encomendasse à moça a tal torta e que guardasse um pedaço pra ele. Ela assentiu e não se falou mais no assunto. Hoje a tarde a mulher de Halim ligou comunicando que tinha uma torta de ricota pronta aguardando, ele vinha buscar ou queria um delivery? Mané foi pego de surpresa e disse que passava lá mais tarde pra buscar e passou. Depois, saboreando o acepipe, Mané constatou que a torta estava boa, mas não era a torta da D. Faiga, se é que me entendem. No entanto aquilo lhe trouxe lembranças e, sentindo-se grato, escreveu um WhatsApp para a mulher de Halim, agradecendo o carinho e disse que aquilo o remetia a bons momentos, enfim, uma mensagem que saiu com mais emoção do que esperava. A moça também se emocionou e mencionou um texto, que Mané tinha escrito sobre d. Faiga, à época de sua morte, ele tinha esse texto para enviar? Mané fez uma busca no Facebook e encontrou o que procurava, copiou, colou e enviou e, antes de esquecer o assunto, leu novamente o que tinha escrito há exatos cinco anos, dia 26/08/16, data da morte de D.Faiga. Mané sentiu um pequeno arrepio. Baita coincidência? A torta de D.Faiga aparecer na frente de Mané, no aniversário de sua morte? Mané escreveu no grupo da família mas as pessoas não estavam ligadas no calendário gregoriano e sim, no judaico onde a data da morte foi há uns dias. Mané comeu mais umpedaço de torta e pensou que não acredita, mas que elas existem, ah, existem. 26/821
Hoje Mané acordou para ir ao escritório onde teve uma reunião presencial com parte de sua equipe. Mané destrancou a porta de sua sala, entrou e abriu completamente a janela, sentou à mesa e ligou o computador enquanto aguardava a chegada das pessoas. Mané ficou fuçando no micro e atualizou tudo que tinha que atualizar mas deprimiu um pouco com o aviso que apareceu, “ultima atualização 16/03/2020” e tentou em vão não ligar pra isso. Logo o pessoal chegou e, a uma distância segura, sentaram para tratar de assuntos urgentes. Diante das pessoas que chegavam vestidas como de hábito para trabalhar, tarde demais, Mané percebeu que tinha ido de bermudas mas esse ocorrido não foi um empecilho para o bom andamento da tertúlia afinal, moramos num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza. O “abençoado”, Mané acha que é Fake News, mas não é disso que se trata agora. Um dos tópicos da conversa foi a possível volta para o trabalho presencial mas diante do alfabeto grego de variantes que se avizinha resolvemos deixar esse tópico para daqui a quinze, quiçá trinta dias. Particularmente Mané acredita que antes da variante Ω, ninguém volta pro escritório. 23/8/21
A mesa onde Mané toma café com a família fica dentro da cozinha, uma espécie de copa localizada próximo à pia onde se lava a louça. Mané não sabe como é a mesa de você, mas a dele costuma ficar bem cheia. Além da torradeira e dos pratos, copos e talheres, há um liuqidificador, uma cesta onde ficam os pães, o adoçante, condimentos e um saco de batata palha que deve estar lá desde o último strogonoff. Na hora do café Salma coloca também diversos tuperwares que contem alguns tipos de queijo, frios, geleia de frutas, o pote com melão, além de dois tipos de leite, um semidesnatado e outro sem lactose, a garrafa térmica de café, uma margarina para Anuar, um vigor mix para Mané e uma manteiga para ela própria, tudo sem sal. O resultado disso é que a mesa fica meio cheia e, muitas vezes, Mané não tem sequer espaço para picar a cenoura que ele junta à ração do Milu para o desjejum o que causa, não poucas vezes, certa irritação pelo acúmulo de coisas e pela falta de espaço vital para se movimentar. Mané, que é uma pessoa obsessiva, fica prestando atenção e, quando alguma coisa já foi usada, ele levanta e coloca o objeto em outro lugar, para poderem tomar café em paz. Todos já se serviram de leite? As garrafas vão para cima da pia. Idem com a garrafa de café, o adoçante, o pote de onde está o melão, enfim, Mané deve levantar umas cinco ou seis vezes por desjejum para liberar espaço. Mané já teve ímpetos de jogar fora o saco de batatas pelha velhas, de coclocar o liquidificador no armário e, fora isso, Mané da um tratamento especial para os tuperwares que por acaso se esvaziem durante o repasto. O potinho de ricota esvaziou? Mané, ao invés de levantar e coloca-lo no mármore da pia, recolhe o artefato de plástico e o atira para trás sem olhar com tal maestria que o mesmo cai diretamente dentro da pia onde será lavado em seguida. Essa atividade, que causa certo estrondo, é desaprovada pelo resto da família, mas ninguém fala nada porque, além de Mané já ter se levantado muitas vezes, isso de fato vai liberando espaço para as pessoas se espraiarem pela mesa oque, convenhamos, é bom. Mané calcula que deva atirar algo entre dois ou três tuperwares por refeição, raramente erra o alvo, mas, quando erra, Milu fica feliz da vida e já faz com a língua, aquela primeira limpeza grossa antes da lavagem. Mané, que não anda muito bem da cabeça por conta de algumas questões paralelas tomava hoje seu desjejum. O tuperware de queijo prato esvaziou e Mané prontamente o atirou para trás, tendo o aparato aterrisado cirurgicamente onde deveria aterrisar. O mesmo Mané fez com o de peito de peru, no entanto, meio segundo após o arremesso, o tuperware que devia ser de palstico, explodiu em mil caquinhos de vidro que inundaram a mesa do café, a cozinha inteira, a área de serviço e o hallzinho que leva á sala. Depois de se recuperar do susto Salma começou a dar um esporro em Mané, tá maluco? E logo pegou Milu para tira-lo do vidro quebrado e ordenou que Mané fizesse a limpeza. Mané cumpriu a tarefa, não com pouca dificuldade, tinha caco de vidro até dentro do pijama de Mané. Quando Mané foi pra sala, Salma ainda estava puta da vida e ameaçou continuar, obrigado por estragar o café da manhã, etc, etc, mas Mané, antecipando-se à cantilena falou duramente: desde quando se coloca peito de peru em tuperware de vidro? Salma saiu da sala pisando duro, Mané ouviu algo como: claro, a culpa é sempre dos outros, mas a coisa parou por aí. De agora em diante Mané vai ter que prestar atenção ao material dos tuperwares a serem atirados, inferno! 19/8/21
Certa vez Mané andava com Anuar pela Av. Sumaré quando passarem por um lugar que lhe trouxe boas lembranças. Mané falou para Anuar que ali, numa determinada esquina, tinha antes uma pizzaria e que ali ele tinha conhecido uma menina pela qual tinha se apaixonado. Numa pizzaria pai, como foi isso? Mané contou que ele tinha uma amiga com quem saia às vezes e que um domingo essa amiga ligou e perguntou se ele queria ir ao cinema e Mané quis. A amiga ia comer uma pizza com outras amigas e pediu que Mané a buscasse mais tarde para irem na sessão das 10. Mané topou e pelas 9:30 apresentou-se à porta da pizzaria. Era verão, Mané estava de moto, de camiseta, sem capacete e postou-se à espera da amiga que saiu pouco depois acompanhada de três garotas que Mané não conhecia, uma morena alta, uma baixinha de olho verde e uma outra com um cabelo castanho cacheado que lhe descia pelos ombros. Essa última, por alguma razão, chamou a atenção de Mané mas ele teve que lidar com a revolta da amiga que chiava pelo fato dele estar de moto o que a obrigaria a andar sem capacete. A de cabelo cacheado veio em defesa de Mané e disse que era domingo, o cinema era perto, não ia ter problema. Mané gostou dela. A amiga então subiu na moto, deu tchauzinho pras meninas e eles se foram. No primeiro farol Mané perguntou a amiga qual era o nome da menina de cabelos cacheados e ela disse, além de acrescentar que ela tinha namorado, dando uma risadinha maldosa. Anuar riu e Mané continuou dizendo que passaram seis meses até ele rever a menina de cabelos cacheados e mais quatro para começarem a namorar. E depois o que aconteceu?, perguntou Anuar. Não quer saber o nome da menina primeiro? Tá bom, qual o nome da menina? E Mané, fazendo uma pausa dramática, recitou: Salma! 14/8/21
Mané acorda no horário de sempre e vai pra sala em silêncio para não incomodar Salma que ressona pacificamente no espaço ao lado. Ele anda pra lá e pra cá pela sala fria observado tão somente por Milu. Mané senta na poltrona do papai mas sente que tem um livro enfiado nas dobras, “ah deve ser o livro que Salma está lendo”, e o retira de baixo da bunda sem muita facilidade pousando-o na mesinha ao lado onde, ele nota, tem mais oito livros empilhados, além de uma foto, uma escultura, um coçador de cabeça, óculos, um calendário, fio dental, lixa de unha, o telefone fixo que ninguém mais usa e os controles da TV. Mané indaga-se com amargura se tudo aquilo tinha que estar ali, não tem espaço nem pra pousar um copo dágua. E esse monte de livros? Todo mundo mundo sabe que Salma tem um sebo que ocupa o que foi um dia o quarto da empregada e acúmulos de livros nunca foram problema nessa casa mas, oito livros na mesinha ao lado da poltrona do papai? Ali deveria estar no máximo o livro da vez e foi o que Mané perguntou a Salma enquanto esquentava a água para o café e eis que ela respondeu que todos aqueles oito livros, eram o livro da vez. Como assim?, retrucou Mané, você está lendo oito livros de uma vez? Isso não é possível! Não é possível porque? A gente não vê três séries e três novelas ao mesmo tempo? E no meio de tudo assiste a dois filmes? Eu to lendo oito livros, um pouco de cada um a cada dia. Mané disse que ler oito era o mesmo que ler nenhum e ela o desafiou a fazer perguntas sobre os livros e ele assim fez durante o desjejum, sobre os que tinha lido dos oito, que eram sete. Salma estava a par do enredo de todos e conhecia bem os personagens e Mané ficou com raiva da assertividade dela e, para confundir, fez-lhe uma pergunta sobre um ponto de um deles que ele sabia que ela não tinha chegado. Ela pousou a xícara de lado e disse: não cheguei nessa parte. Ele rapidamente rebateu, chegou, sim, eu já olhei, tá vendo? não tá entendendo nada da história! Ela ficou remoendo seus pensamentos inconformada e Mané, para encerrar o assunto, foi lavar a louça. Em meio a espuma de detergente e água fria, Mané invejou a capacidade de Salma pois ele só consegue ler dois, no máximo três livros ao mesmo tempo. Oito de uma vez era um espanto. 08/8/21
Quando pandemizamos em março de 2020 deixamos de fazer muita coisa, de ver muita gente, enfim. Abandonamos o trabalho presencial, o convívio com colegas de trabalho, os almoços diários em restaurantes, reuniões de família, encontros com amigos, muita coisa. Nesta semana, quando se iniciam as discussões sobre a volta ao trabalho presencial, Mané surpreendeu-se ao não achar a ideia tão boa. Claro que a variante delta pesa nesse julgamento mas, Mané imaginou que a volta ao trabalho presencial traria de volta também pegar metrô, sair de casa cedo, discussões normais no convívio do dia a dia, almoços naquele quilo meia boca, trânsito se ele optar por ir de carro, horários inflexíveis, isso pra falar do trabalho. Mané perguntou-se de quais amigos ele sente falta. A resposta foi que, dos quais sentia falta ele deu um jeito de encontrar e nem são tantos assim. Ah tá, vai ser bom tomar café sábado à tarde ou comer uma pizza uma ou duas vezes por mês, mas, será que está sentindo tanta falta assim? E as intrigas familiares que viraram fumaça em meio a tudo isso? Quem importava na família, Mané também deu um jeito de encontrar. Terá sentido saudade do resto? Tem coisas que Mané gostou na pandemia, não fosse o medo de morrer. O estreitamento do convívio com sua família pequena, os três passeios diários com o cachorro, séries na TV (no começo, porque ninguém aguenta mais). Ao fim da conversa sobre o retorno, Mané constatou que não sabe se vai se acostumar à vida anterior. Ele acha que vai sentir saudade da pandemia, não fosse o medo de morrer. 04/08/21
Assinar:
Postagens (Atom)