Pelo adiantado da hora percebi que o dia ia ser muito pior do que imaginara quando acordei há pouco mais de cinco horas. A avenida diante de mim estava vazia como se fosse um feriado mas bastava olhar pelo retrovisor para ver a turba ensandecida de automóveis que se arrojavam pelo asfalto e que, como eu, tentava repor os minutos perdidos enquanto os bombeiros tentavam remover do asfalto os destroços do caminhão acidentado. Enquanto acelerava eu tentava me concentrar naquilo que faria primeiro ao chegar ao escritório e, aproveitando a onda de sinais verdes que se abriam adiante, priorizei as atividades de acordo com a urgência e prometi para mim mesmo que não me desviaria nem um milímetro do planejado pois este atraso deixaria o meu dia ainda mais curto, levando-se em conta que eu teria que pegar meu filho na escola no fim da tarde. Eram 11:18hs quando tive que diminuir a marcha porque adiante, já quase no Paraíso, um dos semáforos ficou amarelo. Decidi que logo ao chegar despacharia com o contador para resolver de uma vez por todas aquele problema da Certidão do INSS. Em seguida ia tratar da folha de pagamento. Depois ia ligar para o banco. Não poderia esquecer de cobrar do contador aquele assunto da aposentadoria da faxineira. Nem a contratação do motorista da Kombi e, caso nenhum dos que já tinham aparecido servisse, pensei que talvez fosse o caso de colocar um anúncio. O sinal fechou às 11:19hs e eu fiquei tamborilando impaciente no volante enquanto observava os pedestres atravessarem a faixa à minha frente. Achei que não ia dar tempo de fazer tudo antes da reunião da tarde a não ser que eu pulasse o almoço, mas não queria pular o almoço porque depois eu ficaria morrendo de fome, e acabaria mandando alguém comprar sanduíches na padaria e aí, no dia seguinte, seria obrigado a fazer tempo extra de bicicleta ou esteira, atividade que andava me deixando cada vez mais impaciente; então resolvi que iria almoçar bem e, por isso, engatei a primeira marcha assim que o farol ficou amarelo e me exasperei ao ver que neste exato momento dois velhinhos iniciaram uma vagarosa travessia da avenida, exatamente do lado oposto de onde eu me achava. Quando o casal de idosos alcançou a metade da avenida o farol ficou verde e eles tiveram um momento de vacilação, mas, por sorte, um marronzinho que apareceu não sei de onde, impôs a sua autoridade e segurou os motoristas, entre eles eu, até que os dois chegassem assustados, mas, a salvo à calçada. Quando parti, fiquei me maldizendo pelo grau de hostilidade, ferocidade e agressividade a que esta cidade leva seus moradores, que estão sempre pensando apenas no próprio umbigo, a ponto de pensar, como eu pensei, se dava tempo de passar na frente dos velhinhos, para não perder dez ou quinze segundos. Depois fiquei rindo sozinho pois eu mesmo duvidei que seria capaz de fazer aquilo, mas, não resta dúvida que cheguei a cogitar e isso bastava para me tornar um completo idiota. Às 11:20hs, já na Vila Mariana, fiquei imaginando uma maneira de me redimir e achei que, já que estava tão difícil chegar ao trabalho, que talvez eu devesse simplesmente não ir trabalhar e, ao invés disso, passar o resto do dia fazendo boas ações, postar-me num cruzamento perigoso e ficar auxiliando as pessoas a atravessar a rua, como faziam os sobrinhos do Pato Donald, ou então, ir até o Bom Retiro e prestar trabalho voluntário por um dia em alguma instituição. No fim, enquanto esperava na Domingos de Moraes a outro sinal abrir, resolvi parar de ruminar tolices e me concentrar naquilo que eu tinha que fazer e tentar fazer bem feito, porque, até aquele instante, meu dia tinha sido de um vazio abissal e, fora o fato de ter levado minha filha até o ônibus da escola, eu não conseguia elencar nenhuma outra atividade produtiva que eu tivesse feito. Talvez o pão fresco que eu comprara na padaria pudesse ser considerado como atividade produtiva? O super sanduíche e o Nescau que preparara para o meu filho no café da manhã? Minha habilidade para driblar problemas financeiros logo cedo? Não sei! Às 11:23hs estacionei o carro em frente ao escritório e repassei minha estratégia da melhor forma possível de aproveitamento do tempo. Não consegui encontrar a chave da porta então toquei a campainha e fiquei esperando enquanto escutava os passos miúdos e arrastados da faxineira que ia ser aposentada aproximar-se com dificuldade para abrir a porta. Durante alguns segundos ela lutou contra um acesso de tosse a poucos centímetros de mim do outro lado da porta. Depois travou uma pequena batalha com o molho de chaves ao tentar escolher aquela que faria girar o miolo da fechadura. Os barulhos se repetiam conforme suas tentativas e erros e, já percebendo de que se tratava da minha pessoa a demandar entrada, desculpava-se chorosamente culpando sua precária visão, depois a tosse e por fim sua falta de ar. Permaneci impassível na minha posição ereta enquanto se desenrolavam os acontecimentos e lamentava o esquecimento da minha chave que causava tamanho sofrimento à faxineira, o que levou meus pensamentos para os velhinhos claudicantes que atravessavam a avenida enquanto eu me impacientava ao volante e, nisso, as duas impaciências ficaram girando na minha cabeça e, por uns instantes, tive ímpetos de fugir dali, porém, às 11:26hs, a porta foi aberta pelo contador, que na verdade não é só contador e sim um faz tudo, a me dizer: “graças a Deus que você chegou! Tô com um problemão!”
continua...
domingo, 4 de fevereiro de 2007
domingo, 28 de janeiro de 2007
Um dia na vida - nono fragmento - 10:21
Enquanto deslizava pelas outrora tranqüilas ruas do bairro de Vila Madalena deleitava-me a escutar atenciosamente os sábios conselhos sobre economia de um sujeito chamado Mauro Halfeld (não sei se é assim que escreve) que, com voz calma e aveludada, aconselhava a todos os “brasileiros que tinham passado o ano de 2006 afundados num lamaçal de dívidas”, que tratassem de usar o que tivesse sobrado do décimo terceiro salário para tentar quitá-las no todo ou em parte, ou, se isto fosse impossível, que tentassem trocar estas dívidas mais caras por outras mais baratas e aproveitava para explicar aos endividados em desespero quais eram as melhores opções que estes tinham à disposição no moderno e pujante mercado financeiro brasileiro. Eu estava dando graças aos céus que pelo menos deste mal eu não padecia quando posicionei o carro, às 10:23hs, no fim de uma ruazinha a partir da qual, virando à direita, eu já estaria na Heitor Penteado e dali, teoricamente, seguindo numa linha reta por meros seis quilômetros, depois de trafegar pelas Avenidas Doutor Arnaldo, Paulista, Bernardino de Campos e por um pedaço da Rua Vergueiro, eu logo chegaria ao escritório. Teoricamente, eu disse! Na prática fiquei parado uns bons minutos naquela ruazinha até conseguir entrar à direita na Heitor. Quando consegui, às 10:26hs, só o fiz para me posicionar numa extensa fila de veículos que se espraiavam até onde a vista alcançava. Uma profusão de luzes vermelhas acesas e escapamentos que soltavam aquela fumaça sufocante podiam ser vistas e sentidos impassíveis ao longo da avenida. Pensei em ficar nervoso e amaldiçoar a cidade, as pessoas e os carros, mas, ao invés disso, resolvi relaxar e aproveitar o tempo que ficaria parado no trânsito fazendo alguns telefonemas e, se ainda desse tempo, ler algum material que eu ia precisar para a reunião que teríamos na parte da tarde, isto se eu conseguisse chegar ao trabalho, já que eram 10:30hs e eu só tinha andado uma quadra desde a última vez que tinha olhado o relógio. Os carros começaram a rodar a passo de cágado na altura daquele esplendoroso prédio da Casa de Cultura de Israel, que parece sempre vazio, encima do Viaduto da Sumaré. Naquele ponto dava para ver que o trânsito estava totalmente parado, e que não havia nenhuma esperança de alívio. Logo depois de desligar o telefone, tive ímpetos de mudar de rumos, tentar sair da arapuca, mas, para onde olhava, só via carros parados e gente irritada e, assim sendo, resolvi ser fiel a meus princípios e procurei no banco de trás por uma revista que sempre levo para estas emergências e, entre diversas trocas de marchas, li duas reportagens.
Às 10:45hs cheguei no começo da Dr. Arnaldo e me vi encapsulado na passagem que dá acesso à Paulista. Na CBN informavam que “havia uma passeata de professores na Paulista se dirigindo para a Prefeitura no Viaduto do Chá e que a situação tinha se complicado por causa de um carro de som que tombara ao fazer uma curva interditando três pistas da Avenida. O trânsito estava sendo desviado para ruas laterais enquanto os bombeiros tentavam a remoção do veículo e dos feridos, mas, a maior parte do congestionamento era causada por motoristas curiosos que vinham em sentido contrário e que diminuíam a velocidade para ver as “cenas da tragédia”. Pelas informações, eu era um destes motoristas do sentido contrário e pensei que, se tivesse chance, com certeza iria diminuir a velocidade para ver as tais cenas. Depois de tanto tempo no carro, eu certamente merecia ver o que causava o transtorno. Não entendo como é que as pessoas não entendem que o ser humano é curioso, ainda mais quando se trata de observar a desgraça alheia. Eram 11:00hs quando me acerquei do local. Este também é o horário em que costumo comer uma frutinha e logo me lembrei dos pêssegos que tinha trazido de casa. Para tentar não perder nenhum detalhe, ajeitei o fone de ouvido para o caso do telefone tocar, e coloquei o saquinho de pêssegos ao meu lado para que ficassem à mão e, distraidamente, mordisquei um deles que se apresentou macio, levemente perfumado e corretamente agridoce, exatamente como um pêssego deve ser.
Passava apenas um carro por vez pelo estreito corredor entre o caminhão tombado e a calçada da avenida e eu já tinha comido dois pêssegos quando finalmente chegou a minha vez. No entanto, para minha surpresa, um marronzinho me fez sinal para parar e disse para eu dar uma marcha à ré e, acercando-se da janela, informou-me que eu teria que aguardar porque neste exato instante, iria ter início uma tentativa de içar o caminhão, já que todos os feridos tinham sido retirados e atendidos. Sem mais delongas, afastou-se altaneiro, como se tivesse acabado de cumprir sua missão. Parei no local indicado e, saindo do carro, passei a observar os fatos que atazanavam a vida da cidade naquele dia. Pensei em ligar para a CBN e perguntar se eles queriam que eu irradiasse os acontecimentos ao vivo, mas não demorou muito e eu me vi cercado por uma multidão de motoristas e transeuntes que se aboletavam ao meu lado, o que me deixou bastante contrariado. Sendo assim, voltei para dentro do carro, liguei ambos, motor e ar condicionado e fiquei, aí sim, prestando atenção às desastradas manobras do guincho dos bombeiros que tentou, não uma, nem duas, mas nove vezes, colocar o caminhão de pé. Eram 11:15hs quando a multidão se dispersou e eu pude, finalmente, me ver novamente em movimento.
Continua...
Às 10:45hs cheguei no começo da Dr. Arnaldo e me vi encapsulado na passagem que dá acesso à Paulista. Na CBN informavam que “havia uma passeata de professores na Paulista se dirigindo para a Prefeitura no Viaduto do Chá e que a situação tinha se complicado por causa de um carro de som que tombara ao fazer uma curva interditando três pistas da Avenida. O trânsito estava sendo desviado para ruas laterais enquanto os bombeiros tentavam a remoção do veículo e dos feridos, mas, a maior parte do congestionamento era causada por motoristas curiosos que vinham em sentido contrário e que diminuíam a velocidade para ver as “cenas da tragédia”. Pelas informações, eu era um destes motoristas do sentido contrário e pensei que, se tivesse chance, com certeza iria diminuir a velocidade para ver as tais cenas. Depois de tanto tempo no carro, eu certamente merecia ver o que causava o transtorno. Não entendo como é que as pessoas não entendem que o ser humano é curioso, ainda mais quando se trata de observar a desgraça alheia. Eram 11:00hs quando me acerquei do local. Este também é o horário em que costumo comer uma frutinha e logo me lembrei dos pêssegos que tinha trazido de casa. Para tentar não perder nenhum detalhe, ajeitei o fone de ouvido para o caso do telefone tocar, e coloquei o saquinho de pêssegos ao meu lado para que ficassem à mão e, distraidamente, mordisquei um deles que se apresentou macio, levemente perfumado e corretamente agridoce, exatamente como um pêssego deve ser.
Passava apenas um carro por vez pelo estreito corredor entre o caminhão tombado e a calçada da avenida e eu já tinha comido dois pêssegos quando finalmente chegou a minha vez. No entanto, para minha surpresa, um marronzinho me fez sinal para parar e disse para eu dar uma marcha à ré e, acercando-se da janela, informou-me que eu teria que aguardar porque neste exato instante, iria ter início uma tentativa de içar o caminhão, já que todos os feridos tinham sido retirados e atendidos. Sem mais delongas, afastou-se altaneiro, como se tivesse acabado de cumprir sua missão. Parei no local indicado e, saindo do carro, passei a observar os fatos que atazanavam a vida da cidade naquele dia. Pensei em ligar para a CBN e perguntar se eles queriam que eu irradiasse os acontecimentos ao vivo, mas não demorou muito e eu me vi cercado por uma multidão de motoristas e transeuntes que se aboletavam ao meu lado, o que me deixou bastante contrariado. Sendo assim, voltei para dentro do carro, liguei ambos, motor e ar condicionado e fiquei, aí sim, prestando atenção às desastradas manobras do guincho dos bombeiros que tentou, não uma, nem duas, mas nove vezes, colocar o caminhão de pé. Eram 11:15hs quando a multidão se dispersou e eu pude, finalmente, me ver novamente em movimento.
Continua...
domingo, 21 de janeiro de 2007
Um dia na vida - oitavo fragmento 9:16
Minha mulher é um pouco distraída, mas apenas para as coisas que não têm importância. Ela é capaz de não saber aonde foram parar os óculos que estão na mão dela, mas não esquece que tem que levar os filhos ao dentista daqui a quatro meses, por exemplo. Disse isso porque, às vezes, essa distração me causa espécie e, como aconteceu há um minuto atrás, eu nada respondi quando ela me perguntou sobre o paradeiro dos seus óculos escuros e não o fiz por dois motivos: primeiro porque o dia estava meio encoberto e segundo porque o tal conjunto de duas lentes usado para compensar defeitos visuais montado em armação própria com duas hastes que se prendem às orelhas estava nas suas mãos e em poucos segundos ela perceberia, como de fato percebeu, e a minha informação se mostraria totalmente desnecessária.
A casa mergulhou num silêncio absoluto logo após a saída deles e eu pude me concentrar na desagradável tarefa de verificar os saldos bancários das minhas pessoas física e jurídica, fazer alguns pagamentos devidos, algumas transferências e outras atividades mal-cheirosas.
Às 9:20hs eu já tinha em mãos os extratos das duas contas da pessoa jurídica e logo percebi que não haveria dinheiro suficiente para fazer tudo o que precisava ser feito. Fiquei uns minutinhos analisando quais seriam as possibilidades de se obter os recursos necessários, analisei com mais demora o calendário e contei algumas vezes os dias que faltavam para o fim do mês, quantos dias faltavam para entrar aquele dinheiro mais polpudo e tentei lembrar como é que andavam as minhas relações com o gerente do banco. Às 9:30hs, cheguei à conclusão que algumas das obrigações poderiam ser adiadas, já que o fim do mês e o tal dinheiro ainda demorariam um pouco para chegar, mas, em compensação, lembrei que tinha acabado de renovar o seguro do carro e que eu e o gerente estávamos vivendo um bom momento. Assim sendo, resolvi deixar tudo pra lá e prometi para mim mesmo que iria resolver aquilo mais tarde e dediquei-me a responder alguns emails que tinham chegado durante a noite, enquanto eu dormia. Por volta das dez da noite de ontem, quando fechei minha caixa de entrada, eu tinha lido todas as mensagens que havia. Cheguei à conclusão que ninguém dormia pois quando abri a caixa de manhã, às 9:35hs, havia mais de 20 mensagens postadas durante a madrugada anteriore e mais algumas que haviam chegado agora pela manhã. A maioria delas versava sobre a organização de um jantar que aconteceria no fim do mês com os colegas com quem me formei no ginásio no longínquo ano de 1969. É engraçado ver um monte de marmanjos com mais de cinqüenta anos de repente transformados em meninos e meninas de quinze ou dezesseis anos. Eu estava bastante entretido com as mensagens, mas, às 9:50hs, me dei conta que também estava muito atrasado para ir trabalhar e resolvi ir tomar banho, o que fiz com enorme prazer, pois eu ainda recendia aos suores da academia. Enquanto abria o chuveiro escutei tocar o celular e fiquei em dúvida se ia pelado até a sala atender ou se o deixava a tocar. Se fosse pelado, corria o risco de dar de cara com a empregada que já estava arrumando a casa, atividade que ela começa a fazer no minuto em que eu levanto do computador, seja isso às dez da manhã ou ao meio-dia, pouco importa. Diante deste risco, resolvi ignorar o telefone, que tocou um monte de vezes, e deixei as águas tépidas do chuveiro molharem o meu corpo antes de começar a escovar metodicamente os meus dentes, coisa que fiz depois de passar fio dental. Depois, ensaboei o corpo vigorosamente sentindo um enorme bem estar enquanto toda a imundície escorria pelo ralo. Uma generosa porção de shampoo tratou da depuração da barba e do cabelo, de forma que às 10:05hs, eu já me encontrava limpo e seco, pronto para me vestir e sair para o meu dia de trabalho. Fiquei alguns segundos parados em frente ao armário sem conseguir decidir que roupa vestir e senti uma certa saudade dos tempos em que eu trabalhava de terno. Era só pegar o terno do dia, uma camisa branca, a gravata correspondente ao terno e pronto. Então, lancei mão da mesma calça que tinha usado ontem e anteontem, escolhi uma camisa qualquer e comecei a me vestir com rapidez. O resultado é que me vi com uma calça verde e uma camisa amarela e achei o resultado tão ridículo que voltei para o armário e acabei pegando uma outra camisa, desta vez bege. Às 10:15hs eu pedi para a nossa ajudante lavar dois pêssegos que eu comeria durante a tarde, coisa que ela fez com presteza, entregando-os devidamente embrulhados em guardanapos e acondicionados num saco plástico. Antes de desligar o computador ainda tive tempo de responder mais duas mensagens e atender a um telefonema da minha mãe que estava preocupada porque eu não tinha atendido às três últimas ligações que ela fizera. Tinha ainda mais uma ligação não atendida do escritório, mas, como eu já estava a caminho, resolvi não responder e ver do que se tratava, ao vivo, quando lá chegasse. Às 10:20hs eu estava de novo no sub solo dando a partida no carro e, em poucos segundos, depois das manobras de praxe, eu me impacientava outra vez na frente do portão da garagem, que estrebuchava e guinchava para abrir, enquanto ao mesmo tempo, eu tentava escolher no rádio entre os apresentadores pedantes da CBN ou uma programação classic-rock da Kiss/FM.
Continua...
A casa mergulhou num silêncio absoluto logo após a saída deles e eu pude me concentrar na desagradável tarefa de verificar os saldos bancários das minhas pessoas física e jurídica, fazer alguns pagamentos devidos, algumas transferências e outras atividades mal-cheirosas.
Às 9:20hs eu já tinha em mãos os extratos das duas contas da pessoa jurídica e logo percebi que não haveria dinheiro suficiente para fazer tudo o que precisava ser feito. Fiquei uns minutinhos analisando quais seriam as possibilidades de se obter os recursos necessários, analisei com mais demora o calendário e contei algumas vezes os dias que faltavam para o fim do mês, quantos dias faltavam para entrar aquele dinheiro mais polpudo e tentei lembrar como é que andavam as minhas relações com o gerente do banco. Às 9:30hs, cheguei à conclusão que algumas das obrigações poderiam ser adiadas, já que o fim do mês e o tal dinheiro ainda demorariam um pouco para chegar, mas, em compensação, lembrei que tinha acabado de renovar o seguro do carro e que eu e o gerente estávamos vivendo um bom momento. Assim sendo, resolvi deixar tudo pra lá e prometi para mim mesmo que iria resolver aquilo mais tarde e dediquei-me a responder alguns emails que tinham chegado durante a noite, enquanto eu dormia. Por volta das dez da noite de ontem, quando fechei minha caixa de entrada, eu tinha lido todas as mensagens que havia. Cheguei à conclusão que ninguém dormia pois quando abri a caixa de manhã, às 9:35hs, havia mais de 20 mensagens postadas durante a madrugada anteriore e mais algumas que haviam chegado agora pela manhã. A maioria delas versava sobre a organização de um jantar que aconteceria no fim do mês com os colegas com quem me formei no ginásio no longínquo ano de 1969. É engraçado ver um monte de marmanjos com mais de cinqüenta anos de repente transformados em meninos e meninas de quinze ou dezesseis anos. Eu estava bastante entretido com as mensagens, mas, às 9:50hs, me dei conta que também estava muito atrasado para ir trabalhar e resolvi ir tomar banho, o que fiz com enorme prazer, pois eu ainda recendia aos suores da academia. Enquanto abria o chuveiro escutei tocar o celular e fiquei em dúvida se ia pelado até a sala atender ou se o deixava a tocar. Se fosse pelado, corria o risco de dar de cara com a empregada que já estava arrumando a casa, atividade que ela começa a fazer no minuto em que eu levanto do computador, seja isso às dez da manhã ou ao meio-dia, pouco importa. Diante deste risco, resolvi ignorar o telefone, que tocou um monte de vezes, e deixei as águas tépidas do chuveiro molharem o meu corpo antes de começar a escovar metodicamente os meus dentes, coisa que fiz depois de passar fio dental. Depois, ensaboei o corpo vigorosamente sentindo um enorme bem estar enquanto toda a imundície escorria pelo ralo. Uma generosa porção de shampoo tratou da depuração da barba e do cabelo, de forma que às 10:05hs, eu já me encontrava limpo e seco, pronto para me vestir e sair para o meu dia de trabalho. Fiquei alguns segundos parados em frente ao armário sem conseguir decidir que roupa vestir e senti uma certa saudade dos tempos em que eu trabalhava de terno. Era só pegar o terno do dia, uma camisa branca, a gravata correspondente ao terno e pronto. Então, lancei mão da mesma calça que tinha usado ontem e anteontem, escolhi uma camisa qualquer e comecei a me vestir com rapidez. O resultado é que me vi com uma calça verde e uma camisa amarela e achei o resultado tão ridículo que voltei para o armário e acabei pegando uma outra camisa, desta vez bege. Às 10:15hs eu pedi para a nossa ajudante lavar dois pêssegos que eu comeria durante a tarde, coisa que ela fez com presteza, entregando-os devidamente embrulhados em guardanapos e acondicionados num saco plástico. Antes de desligar o computador ainda tive tempo de responder mais duas mensagens e atender a um telefonema da minha mãe que estava preocupada porque eu não tinha atendido às três últimas ligações que ela fizera. Tinha ainda mais uma ligação não atendida do escritório, mas, como eu já estava a caminho, resolvi não responder e ver do que se tratava, ao vivo, quando lá chegasse. Às 10:20hs eu estava de novo no sub solo dando a partida no carro e, em poucos segundos, depois das manobras de praxe, eu me impacientava outra vez na frente do portão da garagem, que estrebuchava e guinchava para abrir, enquanto ao mesmo tempo, eu tentava escolher no rádio entre os apresentadores pedantes da CBN ou uma programação classic-rock da Kiss/FM.
Continua...
domingo, 14 de janeiro de 2007
Um dia na vida - sétimo fragmento - 8:34
Está provado que quando fazemos algum tipo de atividade física o organismo produz grandes quantidades de uma substância química chamada endorfina que é a responsável por nos transmitir aquela sensação de relaxamento e bem estar, que nos deixa, enquanto está atuando sobre o sistema nervoso, com uma ótima disposição de ânimo e bom humor. Quando chego em casa para o café da manhã vindo da academia, estou com o nível mais alto de endorfinas que vou ter durante o dia e, por isso, aliado ao fato de estar morrendo de fome e saber que vou comer daqui a pouco, encontro-me naquele momento em excelente estado de espírito e de ótimo humor tanto que, às vezes, como por exemplo às segundas feiras, quando a empregada ainda não chegou do fim de semana e sou obrigado a esquentar a água e passar o café além de preparar a mesa para a família antes de sentar para comer mesmo estando morto de fome, desincumbo-me destas tarefas com leveza enquanto cantarolo minhas músicas preferidas, geralmente rocks clássicos ou dos Beatles. Depois, com a mesa já posta, costumo abrir com delicadeza as persianas dos quartos, acordo a minha mulher e meu filho, ligo o computador e, aos poucos, vou colocando a casa em movimento. Mas, neste dia, às 8:35hs, enquanto comíamos generosas porções de melão, apenas comentávamos com vivo interesse, um pedaço da conversa que tínhamos tido com a nossa filha no jantar a respeito das diferentes formas que as pessoas dormem e achamos curioso o fato de eu e minha filha termos hábitos parecidas sem que nunca tivéssemos comentado qualquer coisa um com o outro. Por exemplo, para equilibrar a temperatura do corpo durante a noite, se estou com calor, eu durmo com uma perna coberta e a outra não. Eis que, assim do nada, a menina solta que, na noite anterior, tendo sentido um pouco de calor e, a fim de contrabalançar sua temperatura, descobriu uma das pernas, deixando a outra coberta. Eram 8:40hs quando terminei o melão e perguntei à minha mulher se seria possível eu ter passado essa mania para ela através dos meus genes, ao que ela respondeu: “essa e muitas outras”! Fiquei sem saber se aquilo seria uma crítica ou um elogio, mas, como eu estava de boníssimo humor, deixei a dúvida pra lá e, no exato momento em que meu filho apareceu na cozinha com os olhos inchados de sono e o cabelo desgrenhado e em pé, comecei a preparar um copo de café com leite, o que dá um certo trabalho pois leva leite em pó desnatado, adoçante, além do café propriamente dito e tem que ser muito bem batido senão o leite fica empedrado e, quando isso acontece, praticamente inviabiliza o seu consumo.
De pé na porta, meu filho pergunta: “tem pão fresco”? Eu respondo que sim, e falo para ele vir logo que o pão ainda está quentinho. Ele vem e puxa uma cadeira para sentar e a mãe diz para ele ir primeiro fazer xixi e lavar o rosto e ele diz que já fez isso em tom de protesto e a mãe exige que ele se levante de pronto e vá aliviar o xixi matinal e lavar o rosto e, neste ponto, inicia-se uma negociação onde ele aceita levantar-se para lavar o rosto e fazer xixi desde que, enquanto isso, ela lhe preparasse um sanduíche de queijo e presunto e eu um copo de chocolate frio sem pelotas. Nós concordamos e ele se levantou para cumprir sua parte do acordo. Às 8:47hs, enquanto eu comia uma torrada com queijo cottage e bebia meu café com leite, meu filho voltou do banheiro e se pôs a comer, sem muito ânimo, a metade de um pão com queijo e presunto. Enquanto eu pensava se devia comer uma terceira torrada, ele largou o sanduíche, o que gerou protestos vigorosos da sua mãe, e tomou de um gole só todo o copo de Nescau que eu lhe preparara, levantando-se rapidamente da mesa para, segundo ele, ir fazer coco. Às 8:52hs, combinei com a minha mulher alguns detalhes sobre o transcorrer do dia e me dei conta que este seria corrido por causa do rodízio do carro dela, o que me traria algumas incumbências adicionais ao final da tarde. Quando levantei da mesa, perguntei-me até que horas agüentariam as minhas endorfinas e se elas seriam suficientes para atravessar o dia que se apresentava. De qualquer forma, ás 8:55hs, fui para o computador onde encontrei meu filho ocupado com um joguinho e perguntei: “ué, você não ia fazer coco”? “Um minutinho”, foi o que ele respondeu e eu me impacientei um pouco pois já estava atrasado, tinha alguns emails para mandar, tinha que entrar em alguns bancos pela Internet e ele ficava repetindo: “só um minutinho”! “Já vou fazer coco”!
De repente irrompe minha mulher pela sala e diz para o menino: “mas você ainda está aí”? Depois para mim: “você não sabe que nós temos que chegar mais cedo hoje na natação”? “Ele tem exame médico”! Enquanto às 8:58hs eu conseguia de volta o meu computador, comecei a escutar nos interiores da casa uma atividade frenética de abertura e fechamento de portas, escovação de dentes, torneiras aspergindo água, descargas sendo dadas, passos apressados, gritos, protestos, ameaças e muitas idas e vindas da minha mulher, do meu filho e, principalmente, da nossa ajudante doméstica que, ao que tudo indicava, não cumprira nenhuma das tarefas que lhe tinham sido atribuídas. Às 9:15hs, meu filho apareceu sorrindo, elegantemente trajado de roupão azul, touca de natação e chinelos rider e me disse: “tchau pai, bom dia!”! Depois veio minha mulher esbaforida segurando seus óculos escuros na mão. De passagem, enquanto pegava a bolsa, ela perguntou: “tchau, tô atrasadíssima. Você viu meus óculos escuros por aí”?
Continua...
De pé na porta, meu filho pergunta: “tem pão fresco”? Eu respondo que sim, e falo para ele vir logo que o pão ainda está quentinho. Ele vem e puxa uma cadeira para sentar e a mãe diz para ele ir primeiro fazer xixi e lavar o rosto e ele diz que já fez isso em tom de protesto e a mãe exige que ele se levante de pronto e vá aliviar o xixi matinal e lavar o rosto e, neste ponto, inicia-se uma negociação onde ele aceita levantar-se para lavar o rosto e fazer xixi desde que, enquanto isso, ela lhe preparasse um sanduíche de queijo e presunto e eu um copo de chocolate frio sem pelotas. Nós concordamos e ele se levantou para cumprir sua parte do acordo. Às 8:47hs, enquanto eu comia uma torrada com queijo cottage e bebia meu café com leite, meu filho voltou do banheiro e se pôs a comer, sem muito ânimo, a metade de um pão com queijo e presunto. Enquanto eu pensava se devia comer uma terceira torrada, ele largou o sanduíche, o que gerou protestos vigorosos da sua mãe, e tomou de um gole só todo o copo de Nescau que eu lhe preparara, levantando-se rapidamente da mesa para, segundo ele, ir fazer coco. Às 8:52hs, combinei com a minha mulher alguns detalhes sobre o transcorrer do dia e me dei conta que este seria corrido por causa do rodízio do carro dela, o que me traria algumas incumbências adicionais ao final da tarde. Quando levantei da mesa, perguntei-me até que horas agüentariam as minhas endorfinas e se elas seriam suficientes para atravessar o dia que se apresentava. De qualquer forma, ás 8:55hs, fui para o computador onde encontrei meu filho ocupado com um joguinho e perguntei: “ué, você não ia fazer coco”? “Um minutinho”, foi o que ele respondeu e eu me impacientei um pouco pois já estava atrasado, tinha alguns emails para mandar, tinha que entrar em alguns bancos pela Internet e ele ficava repetindo: “só um minutinho”! “Já vou fazer coco”!
De repente irrompe minha mulher pela sala e diz para o menino: “mas você ainda está aí”? Depois para mim: “você não sabe que nós temos que chegar mais cedo hoje na natação”? “Ele tem exame médico”! Enquanto às 8:58hs eu conseguia de volta o meu computador, comecei a escutar nos interiores da casa uma atividade frenética de abertura e fechamento de portas, escovação de dentes, torneiras aspergindo água, descargas sendo dadas, passos apressados, gritos, protestos, ameaças e muitas idas e vindas da minha mulher, do meu filho e, principalmente, da nossa ajudante doméstica que, ao que tudo indicava, não cumprira nenhuma das tarefas que lhe tinham sido atribuídas. Às 9:15hs, meu filho apareceu sorrindo, elegantemente trajado de roupão azul, touca de natação e chinelos rider e me disse: “tchau pai, bom dia!”! Depois veio minha mulher esbaforida segurando seus óculos escuros na mão. De passagem, enquanto pegava a bolsa, ela perguntou: “tchau, tô atrasadíssima. Você viu meus óculos escuros por aí”?
Continua...
domingo, 17 de dezembro de 2006
Um dia na vida - sexto fragmento - 8:20
Devo ter feito meu pedido umas quatro vezes no balcão daquela padaria que é uma da mais refinadas da Vila Madalena até que uma das mocinhas concedeu-me o esforço de se virar. Atrás de mim já se formava uma pequena fila de cinco pessoas que faziam seus pedidos a esmo. A moça, uma loira de olhos azuis inexpressivos, parada bem à minha frente do outro lado do balcão, gritou a plenos pulmões: “próximo”! Eu repeti que queria quatro pãezinhos claros e duzentos gramas de queijo prato, ao que ela se virou para a cesta de pães e, enquanto os pescava com um pegador de ferro e os colocava num saco, gritou novamente sem se dirigir a alguém em específico: “frios”! Depois, virou-se lentamente, marcou o valor do pão numa comanda, entregou-me o saco e a comanda, gritou novamente, “frios”!, e apontou-me um local à esquerda onde, supostamente, alguém iria fatiar o queijo. Mantendo-me frio, peguei a comanda e o pacote e abri este último para averiguar o conteúdo notando que todos os pães eram muito mais escuros do que o desejável. Ato contínuo devolvi a compra dizendo que eu tinha pedido pães clarinhos e ela, olhando-me com cara de poucos amigos, recolocou os pães na cesta e foi para a cozinha, enquanto a fila aumentava. Voltou com quatro pães que estavam a meu gosto e, depois de me entregar o pacote gritou: “próximo”! Antes de sair da fila perguntei quem ia fatiar o queijo e ela respondeu quem seria, apontando-me um rapaz que já estava manuseando com grande esforço a máquina de cortar. Dei dois passos para o lado e postei-me à frente do menino que logo me ofereceu uma fatia. Perguntou-me se a espessura estava boa e eu disse que sim e fiquei esperando enquanto aquela lâmina ia e vinha e as fatias caíam no pratinho de isopor que tinha sido colocado embaixo. Enquanto ele se esforçava eu fiquei observando o ambiente da padaria. Eram 8:25hs e algumas pessoas tomavam café da manhã em pé no balcão. Era uma população heterogênea, formada por executivos de terno e gravata, outros como eu de short e agasalho, moças um pouco mais descontraídas, trabalhadores em geral, estudantes, guardas e motoristas de táxi. Havia muita gente comprando víveres e a fila que se formara antes não diminuía. Para meu desgosto, enquanto esperava o queijo, uma outra fila tomava corpo no caixa e eu me preocupava em ter de enfrentá-la quando o rapaz me entregou o pacote e pediu-me a comanda para marcar o valor da compra. Às 8:28hs entrei na fila do caixa e impacientei-me por estar muito atrasado. A esta hora minha mulher já devia ter acordado e estaria aguardando o pão fresco sem saber o motivo do meu atraso que, na verdade, se dera por causa do ônibus da minha filha, mas isso não vem ao caso, porque fui ficando cada vez mais nervoso ao perceber que quem pilotava o caixa era uma funcionária pouco esperta que se atrapalhava ao fazer o troco e ficava conferindo numa máquina de calcular a conta que o computador já lhe apresentava pronta quando ela inseria a comanda no visor ótico. Por fim, chegou a minha vez. O computador fez “bip” e apareceu o primeiro valor referente aos pães: 1,27. Fez “bip” novamente e apareceu: 3,56, relativo ao queijo. Total: 4,83. Dei vinte reais para a moça, fiz mentalmente as contas e esperei que me devolvesse o troco de quinze reais e dezessete centavos. A fila fervia enquanto ela refazia as contas na sua máquina de calcular portátil quando, pouco depois, colocou na minha frente quinze reais e quinze centavos. Por uma fração de segundos pensei em armar uma confusão pelos dois centavos faltantes, odeio essa história de “posso ficar devendo dois centavos?”. A moça estava lá totalmente apavorada exercendo uma função para a qual era incapacitada e eis que, surpreendentemente, mesmo achando um abuso, peguei o troco e fui embora sem uma palavra, entrei no carro, dei a partida, esperei o guardador de carros da padaria sinalizar se a rua estava livre, dei marcha à ré, parei no portão da minha garagem, acionei o controle remoto, esperei o portão abrir, entrei na garagem, fechei o portão, desci para segundo sub solo, estacionei na minha vaga, desliguei o motor, tranquei o carro, fui até o elevador, apertei o botão e esperei a máquina chegar.
Às 8:31hs entrei em casa e deparei-me com a minha esposa sentada na mesa da copa lendo o jornal que eu deixara ali mais cedo, bebericando um café preto. “Pôxa, você demorou”, foi o que escutei enquanto colocava o pão quente e fresco e o queijo sobre a mesa. Depois, enquanto eu tirava o agasalho e a camiseta suada na área de serviço eu a ouvi dizer para a ajudante que trabalha em casa: “já foi acordar o meu filho? Depressa, senão nós vamos nos atrasar!”
Às 8:32hs, sentei à mesa, ainda um pouco suado, mas já com uma camiseta limpa e verifiquei satisfeito que tudo já estava pronto para o café. De uma forma desordenada consegui localizar na mesa, além de copos, pratos e talheres, um melão, pão fresco, pão de forma, bisnaguinhas seven boys, margarina com e sem sal, manteiga, queijo cottage, queijo prato, requeijão, peito de peru, leite em pó, leite desnatado, nescau, adoçante, açúcar, uma garrafa térmica com café, cereal, danette, yakult, yogurt e, curioso, perguntei-me quem é que ia comer tudo aquilo, pergunta, aliás, que costumo me fazer todos os dias. Driblando a falta de espaço, cortei uma fatia de melão para mim e outra para minha esposa. E assim, às 8:33hs coloquei na boca um pedaço de melão que estava magistralmente no ponto e especialmente doce. Olhei para a minha mulher que fazia o mesmo e, nesse momento, eu sorri para ela. E ela para mim!
Continua...
Às 8:31hs entrei em casa e deparei-me com a minha esposa sentada na mesa da copa lendo o jornal que eu deixara ali mais cedo, bebericando um café preto. “Pôxa, você demorou”, foi o que escutei enquanto colocava o pão quente e fresco e o queijo sobre a mesa. Depois, enquanto eu tirava o agasalho e a camiseta suada na área de serviço eu a ouvi dizer para a ajudante que trabalha em casa: “já foi acordar o meu filho? Depressa, senão nós vamos nos atrasar!”
Às 8:32hs, sentei à mesa, ainda um pouco suado, mas já com uma camiseta limpa e verifiquei satisfeito que tudo já estava pronto para o café. De uma forma desordenada consegui localizar na mesa, além de copos, pratos e talheres, um melão, pão fresco, pão de forma, bisnaguinhas seven boys, margarina com e sem sal, manteiga, queijo cottage, queijo prato, requeijão, peito de peru, leite em pó, leite desnatado, nescau, adoçante, açúcar, uma garrafa térmica com café, cereal, danette, yakult, yogurt e, curioso, perguntei-me quem é que ia comer tudo aquilo, pergunta, aliás, que costumo me fazer todos os dias. Driblando a falta de espaço, cortei uma fatia de melão para mim e outra para minha esposa. E assim, às 8:33hs coloquei na boca um pedaço de melão que estava magistralmente no ponto e especialmente doce. Olhei para a minha mulher que fazia o mesmo e, nesse momento, eu sorri para ela. E ela para mim!
Continua...
“Um dia na vida” volta em 2007, nas primeiras semanas de janeiro.
domingo, 10 de dezembro de 2006
Um dia na vida - quinto fragmento - 7:39
Nas escadas cruzei com um sujeito que ficou olhando fixamente para a minha camiseta e só então fui me dar conta de que estava usando uma que tinha uma enorme estrela de David estampada no meio do peito, acho que da Marcha da Vida do ano passado. Perguntei-me porque o cara olhava tanto e, quando sentei na bicicleta e comecei a pedalar, a resposta veio através da reportagem da Rede Globo que passava em todas as televisões da sala de aeróbico. Dezenas de tanques e veículos blindados do exército de Israel penetravam pelo território do Líbano cuspindo fogo através de seus longos e grossos canhões enquanto o Marcos Losekan tentava escapar de uma katiusha amalucada que parecia não saber aonde ia, até que os espectadores a viram estatelar-se alguns metros à frente da câmera. Enquanto eu pedalava, as pessoas passavam por mim e miravam o olhar na estrela de David estampada no meu peito e depois olhavam para a televisão e viam o estrago que os aviões e os tanques que portavam a mesma estrela faziam no país dos cedros. Olhavam aquele monte de famílias brasileiras desesperadas tentando fugir dos ataques dos mísseis israelenses e depois voltavam o olhar para o meu peito arfante que suava para empurrar os pedais da bicicleta parada e queimar algumas míseras calorias das muitas por mim acumuladas ao longo dos anos. Eu queria explicar para eles o que, na verdade, estava acontecendo na tela. Queria contar dos meus amigos que tinham fugido dos petardos do Hesbollah para refugiar-se no sul. Queria falar que Israel fazia suas besteiras sim, mas, porque era levado a fazê-las. Que os verdadeiros responsáveis por esta situação idiota eram os anti-semitas europeus em primeira instância e, em segunda, os tribais e ignorantes líderes árabes à época da fundação do Estado de Israel. Mas quem queria me dar ouvidos? Era mais fácil entender que Israel estava destruindo aquele pequeno e belo país que acabava de ser reconstruído. Fui ficando com raiva, mas percebi, satisfeito, que com quanto mais raiva eu ficava, mais rápido o tempo passava e me dei conta de que, às 7:59hs, já havia passado vinte dos trinta minutos de exercício aeróbico que eu me obrigo a fazer todo dia após a musculação. Esta guerra e as pessoas olhando ostensivamente para a minha camiseta com um símbolo judaico me levaram a pensar em como era difícil ser judeu hoje em dia. Isso já tinha me passado pela cabeça ontem quando tentei almoçar num dos poucos restaurantes judaicos da cidade. Fui com uns amigos ao Bom Retiro porque sentimos vontade de comer guefiltefish. Depois de alguns desencontros e atrasos, acabamos chegando um pouco tarde. O lugar, conhecido como Shoshana, é uma espelunca feiosa que fica quase numa esquina perto da Rua Três Rios. Não é lá aquelas coisas em termos de apresentação, mas, como disseram que a comida era boa e vivia sempre cheio, foi com prazer que esperamos por quinze minutos até que uma pessoa muito mal educada, a própria dona segundo soube depois, nos avisou que a nossa mesa, nos fundos, ao lado do banheiro um pouco sujo, estava pronta. Entramos e confesso que senti um certo arrependimento, mas, enfim, havia outras pessoas lá comendo e bebendo e todos pareciam bem. Passou uma eternidade até que alguém se aproximasse e concordasse em trazer algo de beber. Mais algum tempo passou até que outra pessoa, desta vez o dono, viesse perguntar de forma grosseira porque não estávamos comendo. Quando respondemos que ainda não tínhamos conseguido pedir ele devolveu: “porque”? Foi difícil explicar ao ignorante que ninguém tinha nos atendido. Ele ficou nervoso e chamou sua esposa que então resolveu perguntar o que íamos querer. Eu falei: “quero guefiltefish”! Ela disse com desdém: “guefiltefish? À essa hora?”! Outra pessoa na mesa pediu varenikes que também tinha acabado. Em seguida descobrimos que dois outros pratos típicos também estavam em falta e então resolvemos perguntar, afinal, o que é que tinha para comer? A arrogante mulher afastou-se e voltou a chamar o marido que veio gritando: “o que vocês querem? Só temos peixe frito, sopa e fígado com ovo”! Respondemos que não era exatamente aquilo que tínhamos pensado comer, ao que ele, então, enfurecido, aos gritos, nos expulsou de lá: “então podem ir embora! Vão almoçar no coreano, lá é muito melhor”! Nesse momento, na academia, a mulher que estava na bicicleta ao meu lado perguntou do que é que eu estava rindo e eu disse que estava feliz porque tinha terminado meu treino. Eram 8:15hs quando parei de pedalar e já não pensava mais na guerra ou naquele ridículo e lamentável restaurante, muito menos nas risadas que demos depois na mesa do coreano. Apenas desci correndo as escadas porque já estava atrasado, coloquei o agasalho que pegara na chapelaria por cima da camiseta suada, cumprimentei de passagem as meninas da recepção e o guardador de carros, liguei o motor e arranquei em disparada. Quando desci na padaria para comprar pão fresco para o café, senti um leve repuxo no músculo posterior da coxa, o que me fez lembrar que eu esquecera de me alongar. Eram 8:19hs quando encostei a barriga no balcão e pedi bem alto para um dos cinco funcionários que estavam de costas para o público: “por favor, me vê quatro pãezinhos clarinhos e duzentos gramas de queijo prato fatiado bem fininho”?
Continua...
Continua...
sábado, 2 de dezembro de 2006
Um dia na vida - quarto fragmento - 7:04
A moça da chapelaria saudou-me animadamente enquanto eu lhe entregava o agasalho e lhe recomendava que o pendurasse e não o dobrasse, pois havia as chaves do carro e de casa no bolso e eu temia que as mesmas caíssem causando-me transtornos na hora de ir embora. Ela apenas sorriu compreensiva e desejou-me um bom treino e eu imaginei o que poderia haver de bom naquilo, mas de qualquer forma agradeci e ao mesmo tempo resolvi solapar os dez minutos de aquecimento dirigindo-me sem delongas à sala de musculação, onde solicitei ao professor que me auxiliasse a extrair do computador o treino daquele dia. Fui brindado pelo sorriso amarelo do sempre atencioso professor plantonista daquele horário, um jovem com algo entre 23 e 25 anos, musculoso e atarracado, que chama a parte da frente do meu braço de bíceps e a de trás de tríceps. Presenteou a minha fria manhã com um treino de pernas e ombros, de forma que eu me dirigi para o primeiro aparelho de tortura, chamado de cadeira extensora, onde devo ficar levantando com a planta dos pés, um determinado numero de lingotes de ferro, cada um deles pesando sete quilos. Olhei desconfiado quando o professor que me perseguia pela sala ajustou o numero de lingotes em dez, o que significava que eu teria que levantar setenta quilos, coisa que eu duvidava poder fazer. Para não dar vexame iniciei a primeira serie daquele jeito mesmo e logo na terceira levantada senti os músculos do quadríceps começarem a queimar e arder e devo ter feito uma careta, pois percebi a cara de satisfação do professor que me disse “que quanto mais ardesse melhor” e eu não me esqueci de mandá-lo à merda em pensamentos, mas continuei assim mesmo. Quase no fim da primeira série de quinze levantadas fui salvo pela chegada de uma moça de peitos salientes que chamou a atenção do professor, tendo este ido em sua direção imediatamente. Aproveitei a oportunidade para diminuir o peso em dois lingotes, ou seja, diminui a minha carga para 56 quilos, e rezei para que a mocinha entretivesse o professor por muito tempo e que ele não voltasse para o meu lado, coisa que não é muito rara nestas situações. O fato é que a sala de musculação estava muito vazia. Além da minha pessoa estavam apenas a tal mocinha que tinha acabado de chegar e que neste momento roubava as atenções dos dois plantonistas do horário, um rapaz super musculoso que treinava sozinho e que não precisava nem queria a atenção de ninguém, uma moça magrinha, aparentemente maratonista, que estava acompanhada do seu personal trainner ao lado de um aparelho que eu teria que usar daqui a pouco, contando uma história interminável sobre uma festa de ontem à noite, uma moça gordinha fazendo de forma errada um exercício que deixava a sua bunda levantada de uma forma ridícula e ninguém lhe falava nada e uma outra mulher, da minha idade na certidão de nascimento mas portadora de algumas particularidades interessantes. Seu rosto tinha sido muito esticado para cima e para os lados, conforme ela mesmo me confessara certa vez, mas nem precisaria, o que lhe conferia uma idade indefinida e uma leve aparência de lagarto. Quem olhasse só na direção do seu tórax juraria que ela não tinha mais do que 30 anos ao se deparar com o esplendoroso par de seios que portava. Duros e firmes, olhando para cima e para os lados, comprimidos dentro de um top dois números menores do que a prótese de silicone que ela tinha comprado e implantado entre as costelas. A sua parte de baixo ainda estava comprometida. Tinha muita pele caída e não consegui definir direito o que ocorria ali. Uma olhadela conferiria à pessoa uns 70 anos de idade, o que na média lhe daria os mesmos 50 que ela tinha de verdade. Perdido em meus devaneios quase não percebo a aproximação do professor que vinha conferir o andamento do meu treino e espantei-me quando ele incentivou-me com um “é isso aí” quando eu, às 7:24hs, terminava a primeira parte do treino e sentava num aparelho justo entre a mocinha bonita, a detentora das atenções de todos, e a outra senhora, que tentei descrever acima. Enquanto secava o suor do rosto falei: “bom dia meninas” e recebi como resposta um meio sorriso simpático da mocinha e um “obrigada pelo meninas”, da outra senhora. Logo me concentrei naquela atividade absurda de puxar e esticar coisas pesadas e nem sequer respondi senão com um pequeno aceno de cabeça quando a senhora resmungou qualquer coisa a respeito do frio que fazia e de que reclamaria da falta da atenção dos professores daquele horário. Ao levantar-se perguntou-me se eu ia subir para o aeróbico e eu disse que sim. Às 7:34hs eu me aproximei novamente da garota bonita para fazer o meu último aparelho. Pensei no que será que fazia da vida, quantos anos tinha e quais eram seus sonhos. Imaginei se gostava de toda aquela atenção que recebia, se gostava de ler, se era tímida, se comia verduras, se gostava de baladas, se dava-se bem com seus pais, se tinha irmãos, namorado, etc. E depois, quando o professor afastou-se dela, às 7:35hs, eu a encarei e perguntei quantos anos tinha, ao que ela respondeu que faria 28 dali a 15 dias. Pouco depois ela me disse estar surpresa de eu ter perguntado alguma coisa para ela, pois me via na academia há muito tempo e nunca tinha me visto falar com ninguém e que achava que eu tinha cara de muito bravo. Eu dei uma risada e disse a ela que essa era a coisa que mais escutava de estranhos. Às 7:38hs, terminei a musculação e, depois de acenar para o professor, subi para fazer bicicleta.
Continua...
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