quarta-feira, 16 de abril de 2014

Mané agora tem um estômago deste tamanho. Mais do que contra o peso, Mané luta contra o tamanho dos olhos. Aí dentro desse receptáculo, cabem umas quatro colheres de comida, duas de proteína animal, uma de carboidratos e uma de verdura. Sim, se Mané assim desejar ele pode comer alguma folha e dois ou três tomatinhos cereja. Quando o prato de Mané fica pronto seus olhos lhe dizem que vai passar fome. Quando ele começa a comer, no entanto, à altura do terceiro ou quarto bocado, seu estômago já lhe da os mesmos sinais que daria se estivesse num rodízio de carnes e pizzas. Mané se recosta estufado para um pequeno intervalo na refeição mas com a sensação de nem ter começado a comer e se pergunta se isso tudo vale essa pena que é perpétua. (Com foto do vidrinho de sakura) 30/12/13
Aqui ao lado da casa de Mané tem uma igrejinha, acho que batista ou de alguma outra coloração, não sei. Tem culto toda quarta e todo domingo. Na hora do culto, ou antes, entra em ação uma bandinha que toca aquelas marchinhas de coreto. Longe de incomodar, aquele burburinho remete Mané a um tempo em que ele não conheceu. O bucolismo ainda é reforçado pela visão das pessoas chegando aos pares, trajando ternos e vestidos fora de moda, as mulheres de sapato branco e os homens com seus mocassins engraxados, todos bem limpinhos e perfumados com alfazema (pelo menos Mané acha). E quando Mané esta lá na janela observando todo esse movimento ele se pergunta: " mas você, Mané, não tem mais o que fazer"? 29/12/2013
No fundo da geladeira de Mané começou a nascer uma placa de gelo que, a princípio, não recebeu nenhuma atenção. Com o passar do tempo, o gelo começou a se expandir e sua presença já não era passível de ignorância. O gelo começou a invadir o espaço de estocagem do refrigerador já tomando espaço das garrafas, dos frios e dos tuperwares que moram ali. Mané e a esposa passaram alguns dias a se perguntar o que fazer, que atitude tomar ou mesmo como conviver com aquele iceberg. Numa dessas manhãs Mané percebeu que o aquecimento global estava fazendo seu trabalho e que o gelo estava diminuindo de tamanho. Claro que no processo de derretimento o gelo vai se espraiando por toda a geladeira e desde que isso aconteceu, Mané e a esposa passam parte do seu tempo enxugando gelo. Mas esta valendo a pena. Neste ritmo, em poucos dias, tudo terá voltado ao normal. 22/12/2013
Mané já desconfiava, mas hoje ele tem certeza que os médicos são uma classe de mentirosos. As coisas nunca andam exatamente como eles afirmam que vão andar. “Vai doer”? “Magina”! E aí a coisa dói pra caramba. “Em quantos dias estarei andando bem”? “Dois, no máaximo três dias”! E aí o sujeito passa quinze dias torto. No caso de Mané, dessa vez, os médicos até que acertaram. Foi dito a Mané que ele ia aprender a comer de novo, como um bebê. E assim está acontecendo. No começo só se alimentará de líquidos. Depois, líquidos não coados. Em seguida, papinhas. Mais adiante, pedacinhos amassados e, por fim, o retorno da mastigação. Mas é claro que não falaram toda a verdade. Se fosse para aprender tudo de novo como um bebê, porque não teve a fase de mamar no peito? Hein? 17/12/2013
Mané reapareceu esses dias pra me dizer que a parte mais chata de viver a vida monástica que ele está vivendo é a preocupação das pessoas com a vida monástica que ele está levando. Com um estômago de 150ml, a comida perdeu (momentaneamente, ele acha) qualquer importância na vida dele. Mané sente pouca ou nenhuma fome e as míseras quantidades de comida são comidas mais por obrigação do que por vontade. Pior de tudo é ouvir as pessoas falando, “ô dó”, ao ver o prato do almoço de Mané, ou como disse a sogra de Mané ontem no jantar: “ah, mas você não vai nem experimentar um pouquinho de maionese”? E Mané, que sempre se considerou uma pessoa radical, está aprendendo hoje o verdadeiro sentido da palavra “radical”! 16/12/2013
Mané tem se sentido um intruso na própria casa. Durante a semana, das 10 as 16, fica difícil encontrar um lugar para ficar. Mané está pensando em implantar um novo sistema de arrumação. Pela manhã a passagem de roupas e lavagem da louça é feita num local isolado e distante, mas quando a moça dos serviços gerais entra pela casa, se inicia um processo de desmonte de toda a estrutura do lar. Pra começar, a maquina de lavar geme o dia todo. Cada um dos ambientes vai ficando revirado e inacessível e assim permanece até que se terminem as atividades febris do almoço. É quando se inicia a remontagem, lençóis são esticados, cadeiras desviradas, tapetes desdobrados e aos poucos a coisa volta ao normal. Por volta das 15, Mané pode finalmente encostar os ossos na sua poltrona e o silêncio volta a reinar. Um verdadeiro inferno. Mané reclamou com a esposa sobre a falta de planejamento, mas sua peroração não obteve eco. Por que a moça que trabalha aqui não arruma um cômodo de cada vez do início ao fim ao invés de implantar o caos total? 01/12/2013
Mané está vivendo a vida do Milu. Acorda cedo e não tem nada pra fazer. Depois de sapear a net foca esperando a primeira de suas cinco rações diárias. Nos intervalos desce pra passear com o cachorro. Quando volta, extenuado pela atividade, deixa-se cair na poltrona e tira um pequeno cochilo, não sem antes conferir o horário da próxima refeição. Mané assiste TV e conversa com a mãe e Irmã pelo telefone. Responde uns poucos torpedos, de vez em quando recebe um telefonema do escritório. Mané fica meio sonolento o dia todo, não sabe mais o que é trânsito e não gasta nem um tostão daquelas despesas do dia a dia. Em pouco mais de 10 dias, Mané terminou três livros, leu os jornais e a Veja de cabo a rabo, inclusive o caderno de economia. Mané está fora do mundo dito real, Mané vive a vida do Milu. 30/11/2013