quarta-feira, 16 de abril de 2014

Mané chega em casa lá pela 20:30hs carregando toda a nhaca do dia calorento desejando apenas tomar banho, comer (rezar não) e ficar pasmado na frente da TV esperando todo o mal abandonar seu corpo e sua mente. Nisso o celular avisa que chegou um torpedo e Mané se precipita ao aparelho. Uma má notícia de trabalho brilha diante dos olhos. Nada a fazer naquela hora da noite e diante da preocupação Mané começa a amaldiçoar o mensageiro. Mané senta à frente da TV não pasmado, mas preocupado. Até poder tomar alguma providência, aquela vai ser uma longa noite. Mané amaldiçoa mil vezes o mensageiro e sonha em ter os poderes dos barões medievais que mandavam decapitar aquele que trazia más notícias. Mané decapita o mensageiro, uma, duas, dez vezes, mas nada do sono chegar. Hoje á noite, assim que chegar em casa, Mané vai desligar o onipresente celular do demônio. E daqui a pouco, quando chegar ao trabalho, vai decapitar o mensageiro. 04/02/2014
O pai de Mané era um cara que seguia a maioria dos preceitos da religião, ia à sinagoga pelo menos uma vez por semana e travou durante toda a vida uma batalha para trazer Mané para mais próximo desse comportamento, mas, no tocante a isso, pouco conseguiu. Provocador, na adolescência Mané questionava o pai sobre a razão pela qual ele, sendo religioso, não comia comida kasher. O pai respondeu que no Egito os judeus consideravam que toda comida era kasher, já que os muçulmanos têm basicamente os mesmos hábitos alimentares. Quando chegaram ao Brasil, imigrantes bastante perdidos e sem grana, espantaram-se com o custo altíssimo da comida com carimbo do rabinato e resolveram colocar de lado essa questão específica. O pai de Mané já morreu, Mané já não é tão provocador assim, mas essa questão continua em aberto. 30/01/2014
Mané lembra que antigamente era muito raro ter-se notícia da morte de algum conhecido. Morria gente por aí, mas conhecidos eram raros, quase nunca. Mané era um jovem, circundado de pessoas jovens, a morte era uma coisa distante. De uns tempos pra cá começou a morrer muita gente. Parentes mais velhos, parentes dos amigos, conhecidos menos próximos e próximos também. Isso dá o que pensar e, de uma forma mais explícita, Mané vai percebendo que a fila anda. Na lista de contatos do facebook de Mané já tem uma quantidade considerável de mortos. Eles continuam sendo marcados em fotos, de vez em quando aparece alguma publicação em seus nomes. É estranho! Mas mais estranho ainda são aquelas pessoas que ainda estão vivas, mas parecem mortas. Se é que me entendem. 25/01/2014
Nesta semana Mané perguntou à mulher se ela tinha lido este livro (o apanhador no campo de centeio) e ela disse, "sim, li na adolescência e foi impactante". Depois, em separado, perguntou à filha se ela tinha lido esse livro e ela disse, "sim, foi pra mim um divisor de águas". Depois Mané perguntou à uma amiga de 67 anos e ela respondeu, "sim, quando era jovem e passei muito tempo pensando sobre tudo que li!" Então Mané pegou o exemplar depauperado que tem em casa e releu este livro, 41 anos depois de te-lo lido na adolescência. Diferentemente do que ocorreu à época Mané achou o livro meio bobinho, um discurso assim meio cru e naïf, se é que me entendem. Depois Mané reclamou com a mulher, a filha e a amiga, mas elas foram impiedosas dizendo que não interessava o que ele tinha sentido na releitura, que o livro era impactante. Mané pensou um pouco e decidiu que não deveria ter relido o livro, que ele tinha que ter ficado com a impressão do passado que pelo jeito era a de todos. De positivo mesmo o que restou desta re-leitura foi a última frase que Mané reproduz aqui a título ilustrativo. Diz Holden Caulfield: "É engraçado. A gente nunca devia contar nada a ninguém. Mal acaba de contar, a gente começa a sentir saudade de tudo que contou." Impactante! 19/01/2014
Mané sentou hoje, dois meses após a cirurgia, na mesa de um restaurante por quilo ali ao lado do escritório. Mané antes comia ali de vez em quando e costumava pagar uma conta entre R$ 20,00 e R$ 25,00, inclusive refrigerante, e na saída ainda levava um docinho pra mudar o gosto da boca. Ali na frente das bandejas, Mané tentou olhar a comida aos olhos do estomago e se serviu espartanamente. Sentado à mesa Mané comeu com vagar e ao fim da refeição notou que estava satisfeito pouco antes da comida acabar. Mané deixou comida no prato e levantou-se pra pagar a conta que somou R$ 5,17. 16/01/2014
Mané acredita que toda coisa tem dois lados e por isso, ao contrário do que possam pensar os que o imaginam como um pessimista juramentado, Mané também está vendo o lado positivo da coisa, agora que a comida já não tem relevância na sua vida. Passados menos dois meses da tal cirurgia, Mané estabilizou seus níveis de pressão sanguínea, seus índices de colesterol, glicemia e que tais, beiram os de um bebê recém nascido e, principal e fundamentalmente, Mané já não ronca mais, para alegria de sua esposa, que agora acorda sobressaltada durante a noite estranhando o silencio reinante no quarto. 11/01/2014
Mané sempre foi um pessoa um pouco anti-social ou talvez a opção por qualidade ao invés de quantidade explique um pouco melhor a afirmação. Em todo caso Mané agora enfrenta um grande problema, agora que tem um estomago de 150ml e come, quando muito, 3 ou 4 colheres de comida (das de sopa), quando muito. Mané descobriu que 100% dos programas que se faz com amigos e/ou familiares, envolvem comida. Vamos comer algo e ir ao cinema (ou vice-versa)? Vamos jantar, vamos fazer um churrasco, venham comer um espaguetinho, talvez um X-creme de milho com batata frita antes de voltar pra casa, um hot-dog mais descolado. Mané está agora completamente anti-social e tem gastado com louvor os seu repertorio de “nãos”. Depois reclamam que estão gordos. 09/01/2014