domingo, 22 de março de 2020

Samira, por favor, tire esses cactus daí pra gente poder montar esse quebra cabeça pandêmico, disse Mané. Mas pai, não tenho onde colocar, o jardim cresceu nesses dias covidianos e até arranjei dois pirocactus, um maior e um menor. E o que são pirocactus, minha filha? São cactus com formato de....bem, formato fálico. Mané olhou as plantas e desistiu do quebra cabeças, não vão ser fáceis esse dias de quarentena. 19/03/2020
Agora há pouco uma amiga de Mané comentou que deverá faltar matéria prima para fabricar remédios e que um médico “esperto” no assunto tinha lhe dito para fazer um estoque para 4 meses dos remédios para uso contínuo, só por garantia. Mané pensou que desse jeito ia acabar faltando remédios de qualquer jeito mas mesmo assim, como ele não tem tireoide e precisava comprar o remédio que usa, foi até a farmácia para adquirir uma, apenas uma, caixa de Puran T4. Chegando à drogaria lotada, esperou impacientemente pela sua vez e fez o pedido. A morena bonita voltou com 4 caixas e disse: “uma caixa custa 34, se levar 4 sai por 17 cada”. Mané hesitou e perguntou quantas caixas tinha na farmácia e ela disse, tem 8, quer todas? E se outra pessoa precisar? Ela sorriu pra ele e disse: o sr chegou primeiro. Mané ficou lá pensando no que fazer e por ganância disse que ia levar “apenas 4”. Ela insistiu, “em abril os remédios vão subir, leve 8, o sr garante esse preço até o fim do ano”. Mané levou quatro pra ele, quatro de outra dosagem pra Salma e três outras ainda pra sua mãe mas a moça fez o preço reduzido porque eram as três últimas, algum idiota só tinha comprado uma e desestabilizou a promoção. Comprou também um monte de outros remédios que precisavam, luvas de borracha para a mãe, álcool 70, já que o gel estava esgotado, tintura para cabelo e etc, tudo na promoção. Gastou 400 paus mas poderia ter gastado 650, sem o desconto da promoção. Ficou orgulhoso de si mesmo por três segundos e, quando pos o pé pra fora, olhou para Anuar que a tudo assistiu, sentiu vergonha e, enquanto ligava o motor, pensou que a humanidade merece o Corona. 14/03/2020
Hoje a auxiliar de serviços gerais que trabalha no Mané mandou um extenso WhatsApp para Salma avisando que a filha tinha vomitado, estava com pintas pelo corpo e que, portanto, ela iria faltar. Não bastasse o dia carrancudo que se mostrava do lado de fora, o covid19 aqui no quintal, as trapalhadas presidenciais, as contratrapalhadas dos inimigos presidenciais, a bolsa, o dólar, a Disney, Mané poderia ficar perorando infinitamente, havia um monte de louça de ontem pra lavar, havia o banho do Milu e ah, Mané precisava ir trabalhar. Diante do quadro, Salma manteve-se calma mas tensa e Mané, começou a dar chiliques por e-mail, WhatsApp e ao vivo. Mané saiu pra levar o Anuar e Salma foi fazer exames. De volta pra casa Mané obrigou-se a pensar e como o dia teria que ser enfrentado, pôs-se de pronto a lavar a louça enquanto Milu o observava apreensivo. Ao fim da lavagem, Mané recolheu o jornal do xixi, passou um pano com desinfetante no chão e quando viu tudo limpinho, foi imediatamente tomado por uma sensação de paz. Depois, esticou a cama, vestiu-se e saiu como se tudo estivesse bem. 27/02/2020

domingo, 23 de fevereiro de 2020

Num dia como esse, anos atrás, Salma entra no banheiro e se depara com uma poça d’água. Aflita, vai acordar Mané que, de péssimo humor, encontra a fenda por onde minava o líquido pelo forro de gesso. Enquanto Mané determinava que o culpado era o vizinho de cima e espalhava panos e baldes pelo local, Salma pegou a lista telefônica e procurou o número do tal vizinho. Falou com o cara que se mostrou solícito e fechou seus registros para ver se estancava a sangria. Passadas duas horas a água continuava a pinga-pingar e Salma ligou novamente para o vizinho, já com o estopim da paciência acabando. Meu Deus, disse o cara, vou tentar arrumar um encanador pra ver isso. O encanador chegou, fechou toda a coluna do prédio, mas a água não parava. Vou descer aí com o zelador, latiu o vizinho, e estou levando os vizinhos de cima porque o encanador disse que pode ser dos apartamentos acima do meu. Minutos depois toca o telefone: estamos aqui tocando a campainha, eu, 5 vizinhos, o encanador e o zelador, porque vocês não atendem? E Salma: como assim, ninguém tocou nenhuma campainha! Mas a senhora não é do 102? Sim, sou! Pois estamos aqui na porta de serviço. Salma vai até a porta, constata que não tem ninguém e volta ao telefone (fixo): não tem ninguém na porta. Nisso Mané que ainda batalhava com rodos, baldes e panos, pega o telefone e pergunta: o Senhor mora na rua XXX no apto 112 do número 1192? E o cara responde: moro na rua XXX, apto 112, mas no número 1129. E Mané lívido responde numa rajada: desculpe foi engano. tu tu tu tu tu...23/02/2020

sábado, 22 de fevereiro de 2020

Na infância de Mané, a vinda da sua família expulsa do Egito para o Brasil, era assunto que permeava as conversas ao mesmo tempo que ninguém se aprofundava pra valer no tema. Falava-se superficialmente de como era a vida, da extensa parentada, dos amigos, dos estudos, dos poucos problemas, das férias, enfim. A curiosidade de Mané cresceu junto com ele, e, às vezes, cercava os pais e a avó com perguntas e estes nunca contaram mais do que os grandes contornos da aventura, os preparativos, a consecução da nova nacionalidade, o navio, a estadia na Itália, parecia uma epopéia distante e fantasiosa. Certa vez Mané falou pra sua mãe que queria saber das miudezas, dos sentimentos, os preparativos, do dia da partida. Sara lhe contou que acordaram naquele dia e tomaram o desjejum que ela preparou, pão, leite, queijo para o marido e para a irmã Farida e uma mamadeira caprichada pra Mané. Lembrava de ter feito as últimas arrumações e o pai, acertos de última hora. Com carro que os levaria ao porto já carregado com as malas, não houve despedidas de vizinhos nem de familiares, grande parte destes já estava no Brasil. Ela disse que sobrou comida na geladeira e tapetes, móveis, objetos e tralhas foram abandonados dentro da casa. No caminho para o porto divisaram lugares e paisagens que não sabiam se iam rever, a escola, o clube, a sinagoga, o açougue, o boteco da esquina. Depois dos trâmites alfandegários e revistas, subiram pela ponte de embarque e quando o navio se preparava para partir, sua mãe percebeu que estava com a chave de casa na mão. Olhou para o molho, procurou alguém pra entregar e sem saber o que fazer, num impulso, atirou tudo no mar. Mané contou essa história para uma repórter que o entrevistava por ocasião do lançamento de livro e quando finalizava o episódio com o dramático gesto da mãe atirando a chave ao mar, olhou pra moça e viu que ela estava com os olhos marejados e só então percebeu como foi triste esse acontecimento. Mané arrependeu-se de ter insistido em saber dos detalhes, entendeu que certas tristezas tem que ser esquecidas, caso contrário elas passam a fazer parte de você. Foi isso que seus pais e avós tentaram fazer. Não conseguiram.22/02/2020
Esse aqui é o jardinzinho de Samira. Como talvez possam notar, é formado por cactos, plantas carnívoras e suculentas. É um jardim atípico mas, enfim, quem a conhece sabe que ela também não é banal.03/02/2020
Aqui Porto de Galinhas verão 1991. A garotinha é Samira, uns dois anos. Pouco depois dessa foto Mané ligou pra São Paulo e foi informado que Sadam Hussein tinha atacado Tel Aviv com mísseis Scud. Ele ficou alarmado, cogitou, por 5 segundos, interromper as férias e voltar pra casa mas, ó, voltaram pro quarto, trocaram de roupa e foram dar a janta pra menina porque bebês dormem cedo. A guerra acabou logo depois, ou não, Samira cresceu, Mané ficou velho, enfim...25/01/2020