quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Samira chegou em casa com uma nova tatuagem. Apesar de ser uma mulher sob todos os aspectos chegou com os olhos em busca de aprovação. Salma e Mané não dizem nem sim nem não, aprovam sem aprovar, aguentam os filhos que nos tornam bobões para o resto da vida. A tatuagem é bonita, ok, mas Mané achou um pouco excessiva. Samira falou que era um peixe-diabo e Salma, com doçura perguntou “não podia ter feito um peixinho fofinho?”, ok, o que está feito, está feito e de pronto Mané afundou-se na poltrona e se escondeu atrás de umas páginas que o atraiam mais do que uma discussão ou uma reprimenda que não cabe, nunca coube. E Mané ficou ali pensando que Samira o contraria desde que nasceu. Naquele dia, ela emergiu da barriga de Salma, um ratinho meio cinza, cheia de muco e sangue pelo corpo, mal chorou o médico até avisou Mané que estava viva, não se preocupe, um bichinho enrugado e feio que olhava com tédio para Mané que procurava, afinal, cadê a princesa que me prometeram? Enfim, Mané dedicou alguns minutos a Salma enquanto levavam aquele pacotinho, depois a enfermeira voltou com o embrulho e a colocou perto deles, ambos ficaram irritados porque a moça os chamava de pai e mãe, enquanto Mané pensava pai e mãe uma ova, aqui só tem Salma e Mané e essa coisinha pegajosa, que nome dar a essa pessoinha? Depois a cornucópia de cumprimentos e familiares com olhares ansiosos e no fim, no quarto, enquanto aguardavam, Mané cochicha para Salma: “a menina nasceu meio feinha, mas acho que não tem importância” e Salma, atordoada, lhe diz para calar a boca, nem deu pra ver nada ainda. E Mané diz que viu sim e que ela é feinha, meio cinzenta, não deveria ser rosinha? Já que Salma tinha adormecido Mané foi até o berçário e soube que a pequena estava ali bem na frente e com medo foi até o canto apontado e se deparou com um nenezinho todo cor de rosa que dormia profundamente com os bracinhos pra cima. Mané bate no vidro e questiona à enfermeira, “cadê minha filha” e a enfermeira diz que é aquela mesmo e Mané encosta o nariz na vitrine e se apaixona imediatamente por Samira que o olhava de olhos bem abertos e fazia um biquinho assim com a boca, Mané achou que ela queria mamar e bateu novamente no vidro e a enfermeira irada lhe disse que já ia levar o bebê. E Mané correu pro quarto e sacudiu Salma que ainda dormitava e lhe disse: “eu me enganei, ela é linda, cor de rosa, não cinza, vamos chamá-la Samira e Salma, com o olhar esgazeado lhe disse: “me deixa, vai pro inferno, por favor”! Diante desses pensamentos, qual a importância de um peixe-diabo tatuado no braço? 21/06/19

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