Quarta-feira, 4 de Março de 2009

“Na Basiléia foi fundado o Estado Judeu...Talvez daqui a cinco anos, com certeza em cinqüenta, todos se darão conta disso”

Theodor Herzl, o inventor do sionismo nasceu em Budapeste em 1860. Em 1878 a família se mudou para Viena, e, em 1884 Herzl terminou o curso de Direito na Universidade de Viena. Convencido de que sua verdadeira vocação era o jornalismo, abandonou o direito e passou a se dedicar às letras.

Foi correspondente, em Paris, do jornal vienense, "Neue Freie Presse", de onde mandava artigos que causavam impacto.Seu primeiro encontro com o anti-semitismo, que iria moldar a sua vida e o destino dos Judeus no século XX, foi ainda como estudante na Universidade de Viena. Mais tarde, durante a sua estadia em Paris, ele foi colocado frente a frente com o problema. Nessa época, ele passou a considerar que o anti-semitismo era, na verdade, uma questão social e acreditava que a assimilação e a conversão de judeus não era solução para o problema.


Em 1894, o Capitão Alfred Dreyfus, um oficial judeu do exército francês, foi injustamente acusado de traição. Herzl testemunhou multidões que saíam às ruas para gritar “morte aos judeus”, na França, berço da Revolução Francesa, e chegou à conclusão que só existia uma única solução para esse problema: a imigração em massa de judeus europeus para uma terra que pudessem chamar de sua. Considera-se que o Caso Dreyfus foi um dos fatores determinantes para o surgimento do Sionismo Político. Herzl concluiu que o anti-semitismo era uma mal perene e imutável, enraizado na sociedade européia.


Ele desenvolveu a idéia da soberania judaica, e, a despeito de ter sido ridicularizado pelos líderes comunitários judeus, escreveu, em 1896, seu livro "O Estado Judeu". Nesta obra, Herzl argumenta que a essência do problema judaico não era particular, mas nacional e declarou que os judeus só seriam aceitos na comunidade mundial ao se tornar uma nação como as outras. Para ele, a questão judaica era uma questão política internacional e deveria ser debatida nas arenas políticas internacionais.

Herzl propôs um programa de arrecadação de fundos junto a judeus ao redor do mundo, através de uma organização comunitária que trabalharia na consecução desta meta (essa organização, quando foi finalmente fundada, recebeu o nome de Organização Sionista Mundial). Ele via esse Estado como sendo um estado socialista modelo, neutro, partidário da paz e de natureza secular. Herzl imaginou o futuro Estado Judeu como uma utopia socialista. Ele previu uma nova sociedade que iria nascer na Terra de Israel, cooperativista, e que se utilizaria da ciência e da tecnologia para seu desenvolvimento.O Estado Judeu é descrito como uma nação pluralista, uma sociedade moderna e avançada, uma “luz entre as nações.”

As idéias de Herzl foram recebidas com entusiasmo pelas massas judaicas do leste europeu, apesar de terem sido recebidas com frieza pelas lideranças comunitárias. Herzl conclamou os judeus de posses, como os barões Hirsch e Rothschild para se juntarem ao Movimento Sionista, mas, seus esforços foram em vão.

Ele então apelou ao povo, e o resultado foi a convocação do Primeiro Congresso Sionista, na Basiléia, Suíça, em agosto de 1897, primeira reunião mundial de judeus em bases nacionais e seculares, onde os delegados elaboraram o programa do Movimento Sionista e declararam que o sionismo é “um movimento que procura estabelecer na Palestina, um Lar Nacional para o povo judeu.” Neste Congresso foi fundada a Organização Sionista Mundial como o braço político do povo judeu, e Herzl foi eleito como seu primeiro Presidente.No total, Herzl convocou seis Congressos Sionistas entre 1897 e 1902, onde foram criadas duas das principais ferramentas do ativismo sionista, o Fundo Nacional Judaico e o jornal que se tornou o porta-voz do movimento, o Die Welt (O Mundo).

Herzl percebeu que precisaria do apoio das grandes potências a fim de alcançar os anseios do povo Judeu, e, para isso, viajou para a Palestina e Istambul, em 1898, para encontrar-se com o Kaiser Guilherme II, da Alemanha e com o Sultão Abdul Hamid do Império Turco-Otomano. Quando estes esforços se mostraram infrutíferos ele concentrou seus esforços junto à Grã-Bretanha, tendo se encontrado com o Secretário das Colônias Joseph Chamberlain e saiu de lá com uma proposta concreta de se fundar uma região autônoma judaica no local onde hoje está Uganda, proposta que foi recusada pelo Movimento Sionista, no Congresso de 1905.

Herzl morreu em Viena, em 1904, já com a saúde abalada pela pneumonia e problemas no coração.

Quinta-feira, 10 de Abril de 2008

Tem um monte de caneta lá embaixo

Lá no escritório tem um porão onde todos tem medo de entrar e por isso usamos apenas a parte da frente, que equivale a 20% da área total. Nestes 20 por cento estão algumas coisas arquivadas para serem esquecidas e numa prateleira espremida entre a parede e um armário do qual não temos chave, está colocado o nosso estoque de material de escritório.
O contador, que trabalha num esquema de escritório remoto, chegou ofegante e suado, depois de ter viajado duas horas de ônibus da casa dele até o escritório, para resolver um problema com o INSS. Bem talvez seja o FGTS, quem sabe a Receita Federal, mas, na verdade isso não tem a menor importância.
O fato é que ele sentou no computador e começou a clicar em diversos lugares e sites e. num determinado momento, pediu por uma caneta. Como eu só uso Montblanc, Waterman ou Aurora e não costumo emprestá-las nem por um caralho, recusei-me a ceder uma destas e disse que não tinha caneta nenhuma, mas, caso ele quisesse uma, poderia descer até o tal porão onde acharia caixas e caixas de bics ou equivalentes.
Ele respondeu que aquele lugar era infectado por todo tipo de praga e que seria extremamente desagradável pegar alguma doença para conseguir anotar umas poucas coisas no site da receita (ah! então o problema é na receita!). Respondi que não havia outra alternativa e pedi para que desviasse o olhar das minhas canetas que aquelas, eu não emprestaria. Elas eram inemprestáveis. Com um muxoxo levantou-se para se dirigir ao porão e lá ficou por um tempo muito maior que eu imaginava.
Quando voltou estava suado e com a camisa manchada de pó e graxa em três pontos visíveis. Trazia gotas de suor na testa e nas têmporas e coçava o antebraço da mão que segurava uma caneta bic.
Perguntei o que tinha acontecido e ele respondeu que tinha localizado diversas caixas de canetas, uma delas aberta. Quando enfiou a mão dentro da caixa sentiu, ou imaginou sentir, seus dedos tocando alguma coisa pequena e peluda. Tirou a mão rapidamente pensando ser uma aranha ou, na melhor da hipóteses, um camundonguinho. Ao fazer esse movimento estabanado derrubou a caixa aberta de canetas e seu conteúdo foi despejado atrás da estante, com estardalhaço, num local sem acesso, entre a parede e o armário trancado e sem chave. Que merda, pensou!
No entanto, ao recuar assustado, jura ter visto algum ser despencando da estante junto com as canetas; não sabe dizer se uma aranha ou um camundonguinho, quase filhote. Conta ainda que abaixou-se para tentar reaver as canetas, mas, o chão em baixo da estante parecia se mover e ele então resolveu abdicar daquelas canetas, abriu uma outra caixa, pegou uma caneta e subiu, já sentindo uma coceira no braço. perguntei sobre as manchas e ele respondeu que achava que, ao se abaixar, deve ter raspado em alguma superfície nojenta, coisa que não falta lá embaixo.
A coceira acabou sendo debitada a algum dos milhares de pernilongos que moram naquele porão, mas, xi!, o pernilongo te picou agora de dia?, será que não é um aedes aegypti?
Tendo recolhido os dados necessários para tentar resolver nossos problemas com o fisco, despediu-se dizendo que ia para casa pois se sentia enjoado e doente e que esperava não pegar dengue. A última coisa que falou foi: "tem um monte de caneta lá embaixo da estante!"

Terça-feira, 8 de Abril de 2008

O livro do Sobel

Confesso que senti um certo mal estar ao receber o copião do livro do Rabino. Afinal, não se trata de um livro ou de uma pessoa qualquer. Fiquei com medo de escrever a seu respeito ou a respeito deste livro, já que estamos falando de um ícone. Foi o mesmo medo que senti quando recebemos a notícia das gravatas.

E agora? Nós, que estávamos acostumados e gostávamos de ser representados por aquela figura folclórica, de repente nos vimos órfãos, sem chão. Quem vai ser agora o embaixador dos judeus brasileiros?

Numa das passagens do livro, Sobel conta que sentou-se no chão do moadon da Casa da Juventude da CIP para conversar com 1.500 jovens. Eu, que não sou grande apreciador de rabinos, era um daqueles jovens que ficaram hipnotizados escutando as suas tentativas de falar português. Mas aquilo não é um rabino, pensávamos. Depois, mesmo convivendo de perto, custamos a nos acostumar com a novidade. Um rabino jovem, disponível, sem barba, cabeludo, que usava bermudas, ia para a piscina, jogava vôlei com a gente na Rua Antonio Carlos e admirava uma mulher bonita passando na rua. Que rabino é esse?

Essa foi a mesma pergunta que todos se fizeram ao ver, estarrecidos, as fotos e notícias sobre o episódio em Palm Beach. Todos já sabíamos que o Rabino era apenas um ser humano, pois foi assim que ele sempre quis que o víssemos, e, como tal, estava sujeito a cometer erros. Nem todos os rabinos se colocam assim. Na sua maioria apresentam-se como pessoas imunes a falhas e dirigem-se às pessoas de maneira superior, de cima de um pedestal, ignorando a sua condição humana, ignorando, por vezes, a sua juventude e suas fraquezas.

Sobel também tinha suas vaidades. A diferença é que ele as fez por merecer, através do seu trabalho e da sua inteligência.

Tudo isso está contado no livro e, paradoxalmente, este é o grande defeito da obra. Ao longo das páginas, as histórias se sucedem frenéticas. Parece um relatório de atividades e justificativas. Como alguém a dizer: “sim, fiz um monte de besteiras e uma besteira mor, mas, em compensação, vejam quantas coisas boas produzi ao longo destes 40 anos”.

Não precisava, Rabino! Não neste contexto, não como se fosse necessária alguma justificativa. A sua vida, seu trabalho e suas posições são muito maiores que isso.

Os judeus estão habituados a pedir perdão e fazem isso todo ano. Sim, eu acho que a comunidade que você representava esperava um pedido de desculpas por aquela desonra pública, mesmo que se tratasse de efeitos colaterais de remédios ou doença, pois, no mínimo, você foi relapso, incauto. Afinal sempre pode haver um idiota a dizer: “veja do que é capaz o maior representante dos judeus”. E houve muitos idiotas, Rabino!

É claro que uma biografia do Sobel, em qualquer tempo, interessa ao público. Ele sempre foi uma boa ancora, um ótimo chamariz. Sua opinião passou a ser importante, e interessante, em qualquer circunstância, e, para o grande público, esta era a opinião dos judeus.

E agora? Quem vai ser nosso representante?

No livro que escreveu às pressas você poderá ler os detalhes sobre o caso Vladimir Herzog, que foi o vetor da sua introdução na vida pública brasileira. Além das polêmicas sobre doação de órgãos, quando da morte de Marcelo Fromer, das intrigas, as tentativas de puxarem-lhe o tapete e as sucessivas respostas a estas tentativas. Também fomos presenteados com alguns detalhes de sua vida desde a infância até a idade madura. Sobel desfila uma galeria de amigos importantes que conquistou ao longo do tempo, através de seu modo de agir, sempre conciliador, tolerante e solidário. E também uma galeria de inimigos, estes não tão importantes assim, quando então atuava de forma contrária. Quase uma metamorfose ambulante. Aliás, o livro está recheado de passagens, ainda sob aquela égide de se justificar perante o público, as quais pouca gente vai entender. Brigas, disputas e futricas intercomunitárias que serão de difícil assimilação para judeus que não são ativistas. O que dizer então para o público não judeu? Como é que um gói vai entender os meandros da nossa comunidade? As inúmeras linhas, doutrinas e facções que se entrecruzam, os ódios, rangeres de dentes e os diz-que-diz-que, que vicejam entre nós?

E há também um complicador que é a própria personalidade do Rabino. Quem é que pode entender um rabino que se declara vaidoso e se jacta de suas conquistas? Um homem que se sente à vontade tanto ao lado do Maluf como do Covas, do Lula, do Arafat ou do Papa...dá pra entender? Isso lá é postura de um homem que fez da religião o seu ofício? É!

No prefácio, FHC diz que passou uma tarde de sábado lendo o livro, cinco ou seis horas, talvez. Eu fui mais rápido. Não levei nem três para lê-lo (verdade que obliterei as prédicas e apêndices), o que denota o fato de que o livro é muito interessante, apesar do viés do contexto. Contudo, este foi o cenário que se apresentou ao Sobel, e, apesar de tudo, o livro prende a atenção, evoca lembranças, emociona e deixa uma sensação de perda.

Quem sabe daqui a alguns anos, o assunto estando mais sedimentado, possa ser lançado “Um Homem Um Rabino – reloaded”.

Não posso, finalmente, me furtar a destacar três coisas que me chamaram a atenção. A primeira, o sobrenome original do Henry Isaac: Zweibil. Nem desconfiava! A segunda, en passant, Sobel confessa não ter sido aquele,

seu primeiro incidente com a polícia americana. E a terceira, na seção de fotos, o Sobel tentando explicar ao Lula como se faz o hamsa.

putz!

esqueci de postar o resto da novela

Segunda-feira, 12 de Fevereiro de 2007

Um dia na vida - décimo primeiro fragmento - 11:27

Não dei atenção às perorações do contador porque já conheço seu jeito de se afligir quando se acumulam diversas tarefas com tempo determinado para acabar e ele sabe que não vai dar conta de terminar nenhuma delas: ele chama a isso de “problemão”! Costuma me pedir ajuda no intuito de que eu o dispense de alguma delas ou de todas, preferencialmente, pois sendo um destes contadores tradicionais e conservadores, tem o hábito de dizer que esta não deveria ser sua tarefa, ao que eu costumo responder que “nós somos uma empresa pequena e que hoje em dia um funcionário tem que ser mais flexível, até os motores de carros aceitam hoje diversos tipos de combustível, porque um funcionário régiamente pago não pode também ser multi-tarefas”? O fato é que estes debates costumam demorar muito tempo então eu tomo o cuidado de iniciá-los somente quando tenho tempo de sobra e estou de bom humor! Quando ele tem um problema de verdade costuma se recolher à sua mesa e entra num mutismo absoluto, como se estivesse em coma e, nessa hora, somente nessa hora, é que eu começo a me preocupar. E, mesmo assim, só um pouco! Sendo assim, entrei como uma flecha, sem olhar ninguém diretamente nos olhos, para não dar chance a questionamentos, desculpando-me pelo esquecimento da minha própria chave. Cumprimentei algumas pessoas que vi na sala de espera e me dirigi à minha própria onde, logo após entrar, fechei a porta, abri a janela para deixar entrar o ar frio do inverno e desabei na cadeira já me sentindo esgotado num dia que mal havia começado. Enquanto ligava o computador perguntei para mim mesmo se não estaria ficando velho demais e se não seria o caso de abandonar a academia que me fazia acordar de madrugada e me esgotava com toda essa levantação de ferros e corridas desvairadas para lugar nenhum a bordo de bicicletas imóveis ou encima de esteiras estacionadas. O computador me avisou que eram 11:33hs e, pela enésima vez naquele dia, resolvi parar de pensar em cretinices e me concentrar naquilo que tinha que ser feito e por isso fui até a porta e depois de abrí-la chamei pelo contador, pelo boy, pela auxiliar administrativa e pela nossa secretária, pronunciando em voz alta cada um dos seus nomes, pausada e claramente, e voltei par a minha mesa onde o micro já tinha carregado e mostrava a minha agenda do dia que estava totalmente desatualizada em função do adiantado da hora e também porque eu não a atualizara nos últimos seis meses. Depois de tentar lembrar como é que se desabilitava esta função “agenda” eu virei e me deparei com três das quatro pessoas que havia chamado, que miravam-me com olhar mortiço. Às 11:36hs desvencilhei-me do boy que, para variar, já estava com o dia tomado e perguntou aos céus, enquanto saía, “quando será que Deus vai olhar pra mim ou, pelo menos, iluminar a cabeça das pessoas para que elas percebam que eu sou um só e que não dá pra estar em quatro lugares ao mesmo tempo. Depois eles não entendem porque é que tem tanto bandido nas ruas e tanto homem-bomba no Oriente Médio...” Às 11:38hs cobrei da auxiliar como ia a preparação da folha de pagamento e ela se defendeu acusando meio mundo e dizendo que ali ninguém a respeitava, não mandavam os cartões de ponto ou se os mandavam o faziam de forma incorreta e incompleta e, por isso, juntos fizemos cinco ligações telefônicas e depois das promessas que ouvi, ela própria prometeu-me que a folha estaria na minha mesa ao final da tarde desde que a secretária, que não estava presente, deixasse de ser tão folgada e a ajudasse na colossal tarefa de digitação, conferência e impressão. Neste exato momento, a moça citada entra na sala, senta-se de cara amarrada e diz que ela ajuda na medida do possível, que faz dela as palavras do boy e que também ela se transformaria numa mulher-bomba caso as pessoas não entendessem que ela era uma só. Às 11:48hs a auxiliar administrativa lhe disse que “deste tamanho que você está, vai ficar meio difícil as pessoas acharem que você é uma só e aliás, você já parece uma mulher-bomba”! Ante a estupefação da secretária, ao invés de gargalhar, resolvi interferir e perguntar: “afinal de contas, o que é que vocês sabem de mulheres e homens-bomba que em vinte minutos, tanta gente já falou”? O contador que até o momento tinha estado calado parou de rir e disse que era eu mesmo que não parava de falar dos palestinos e que eles tinham tomado gosto pela coisa. A secretária chorosa reclamou por ter sido chamado de gorda e disse que ela trabalhava muito e que ninguém reconhecia e que ela não tinha culpa de sentir tanta fome e ter disfunções hormonais e então, para ser gentil, eu perguntei porque ela não fazia exercícios ao que ela respondeu que isso para ela não adiantava e foi quando eu decidi encerrar o assunto e solicitei formalmente a sua colaboração no sentido de agilizar o término da folha de pagamento e, para ser mais incisivo, emendei: “caso contrário a empresa será obrigada a atrasar os salários e todos os setenta funcionários vão saber quais foram os motivos do atraso”! Eram 11:56hs quando a auxiliar deu uma grande risada e disse que quando a notícia é ruim, a empresa é que será obrigada a fazer isso e aquilo. Quando a notícia é boa, nosso chefe aqui é que conseguiu os benefícios”! E passando a mão no ombro da secretária, disse: “vamos, dona Baleia, vamos trabalhar antes que o exército de Israel coloque os tanques na rua”. A secretária afastou a mão dela e, pesadamente, saiu rebolando o avantajado traseiro. Na porta ela ainda perguntou se eu queria algo da padaria já que seria necessário reforçar seu estoque de bolachas para suportar o ritmo pesado de trabalho da parte da tarde.
Continua...

Domingo, 4 de Fevereiro de 2007

Um dia na vida - décimo fragmento - 11:16

Pelo adiantado da hora percebi que o dia ia ser muito pior do que imaginara quando acordei há pouco mais de cinco horas. A avenida diante de mim estava vazia como se fosse um feriado mas bastava olhar pelo retrovisor para ver a turba ensandecida de automóveis que se arrojavam pelo asfalto e que, como eu, tentava repor os minutos perdidos enquanto os bombeiros tentavam remover do asfalto os destroços do caminhão acidentado. Enquanto acelerava eu tentava me concentrar naquilo que faria primeiro ao chegar ao escritório e, aproveitando a onda de sinais verdes que se abriam adiante, priorizei as atividades de acordo com a urgência e prometi para mim mesmo que não me desviaria nem um milímetro do planejado pois este atraso deixaria o meu dia ainda mais curto, levando-se em conta que eu teria que pegar meu filho na escola no fim da tarde. Eram 11:18hs quando tive que diminuir a marcha porque adiante, já quase no Paraíso, um dos semáforos ficou amarelo. Decidi que logo ao chegar despacharia com o contador para resolver de uma vez por todas aquele problema da Certidão do INSS. Em seguida ia tratar da folha de pagamento. Depois ia ligar para o banco. Não poderia esquecer de cobrar do contador aquele assunto da aposentadoria da faxineira. Nem a contratação do motorista da Kombi e, caso nenhum dos que já tinham aparecido servisse, pensei que talvez fosse o caso de colocar um anúncio. O sinal fechou às 11:19hs e eu fiquei tamborilando impaciente no volante enquanto observava os pedestres atravessarem a faixa à minha frente. Achei que não ia dar tempo de fazer tudo antes da reunião da tarde a não ser que eu pulasse o almoço, mas não queria pular o almoço porque depois eu ficaria morrendo de fome, e acabaria mandando alguém comprar sanduíches na padaria e aí, no dia seguinte, seria obrigado a fazer tempo extra de bicicleta ou esteira, atividade que andava me deixando cada vez mais impaciente; então resolvi que iria almoçar bem e, por isso, engatei a primeira marcha assim que o farol ficou amarelo e me exasperei ao ver que neste exato momento dois velhinhos iniciaram uma vagarosa travessia da avenida, exatamente do lado oposto de onde eu me achava. Quando o casal de idosos alcançou a metade da avenida o farol ficou verde e eles tiveram um momento de vacilação, mas, por sorte, um marronzinho que apareceu não sei de onde, impôs a sua autoridade e segurou os motoristas, entre eles eu, até que os dois chegassem assustados, mas, a salvo à calçada. Quando parti, fiquei me maldizendo pelo grau de hostilidade, ferocidade e agressividade a que esta cidade leva seus moradores, que estão sempre pensando apenas no próprio umbigo, a ponto de pensar, como eu pensei, se dava tempo de passar na frente dos velhinhos, para não perder dez ou quinze segundos. Depois fiquei rindo sozinho pois eu mesmo duvidei que seria capaz de fazer aquilo, mas, não resta dúvida que cheguei a cogitar e isso bastava para me tornar um completo idiota. Às 11:20hs, já na Vila Mariana, fiquei imaginando uma maneira de me redimir e achei que, já que estava tão difícil chegar ao trabalho, que talvez eu devesse simplesmente não ir trabalhar e, ao invés disso, passar o resto do dia fazendo boas ações, postar-me num cruzamento perigoso e ficar auxiliando as pessoas a atravessar a rua, como faziam os sobrinhos do Pato Donald, ou então, ir até o Bom Retiro e prestar trabalho voluntário por um dia em alguma instituição. No fim, enquanto esperava na Domingos de Moraes a outro sinal abrir, resolvi parar de ruminar tolices e me concentrar naquilo que eu tinha que fazer e tentar fazer bem feito, porque, até aquele instante, meu dia tinha sido de um vazio abissal e, fora o fato de ter levado minha filha até o ônibus da escola, eu não conseguia elencar nenhuma outra atividade produtiva que eu tivesse feito. Talvez o pão fresco que eu comprara na padaria pudesse ser considerado como atividade produtiva? O super sanduíche e o Nescau que preparara para o meu filho no café da manhã? Minha habilidade para driblar problemas financeiros logo cedo? Não sei! Às 11:23hs estacionei o carro em frente ao escritório e repassei minha estratégia da melhor forma possível de aproveitamento do tempo. Não consegui encontrar a chave da porta então toquei a campainha e fiquei esperando enquanto escutava os passos miúdos e arrastados da faxineira que ia ser aposentada aproximar-se com dificuldade para abrir a porta. Durante alguns segundos ela lutou contra um acesso de tosse a poucos centímetros de mim do outro lado da porta. Depois travou uma pequena batalha com o molho de chaves ao tentar escolher aquela que faria girar o miolo da fechadura. Os barulhos se repetiam conforme suas tentativas e erros e, já percebendo de que se tratava da minha pessoa a demandar entrada, desculpava-se chorosamente culpando sua precária visão, depois a tosse e por fim sua falta de ar. Permaneci impassível na minha posição ereta enquanto se desenrolavam os acontecimentos e lamentava o esquecimento da minha chave que causava tamanho sofrimento à faxineira, o que levou meus pensamentos para os velhinhos claudicantes que atravessavam a avenida enquanto eu me impacientava ao volante e, nisso, as duas impaciências ficaram girando na minha cabeça e, por uns instantes, tive ímpetos de fugir dali, porém, às 11:26hs, a porta foi aberta pelo contador, que na verdade não é só contador e sim um faz tudo, a me dizer: “graças a Deus que você chegou! Tô com um problemão!”
continua...

Domingo, 28 de Janeiro de 2007

Um dia na vida - nono fragmento - 10:21

Enquanto deslizava pelas outrora tranqüilas ruas do bairro de Vila Madalena deleitava-me a escutar atenciosamente os sábios conselhos sobre economia de um sujeito chamado Mauro Halfeld (não sei se é assim que escreve) que, com voz calma e aveludada, aconselhava a todos os “brasileiros que tinham passado o ano de 2006 afundados num lamaçal de dívidas”, que tratassem de usar o que tivesse sobrado do décimo terceiro salário para tentar quitá-las no todo ou em parte, ou, se isto fosse impossível, que tentassem trocar estas dívidas mais caras por outras mais baratas e aproveitava para explicar aos endividados em desespero quais eram as melhores opções que estes tinham à disposição no moderno e pujante mercado financeiro brasileiro. Eu estava dando graças aos céus que pelo menos deste mal eu não padecia quando posicionei o carro, às 10:23hs, no fim de uma ruazinha a partir da qual, virando à direita, eu já estaria na Heitor Penteado e dali, teoricamente, seguindo numa linha reta por meros seis quilômetros, depois de trafegar pelas Avenidas Doutor Arnaldo, Paulista, Bernardino de Campos e por um pedaço da Rua Vergueiro, eu logo chegaria ao escritório. Teoricamente, eu disse! Na prática fiquei parado uns bons minutos naquela ruazinha até conseguir entrar à direita na Heitor. Quando consegui, às 10:26hs, só o fiz para me posicionar numa extensa fila de veículos que se espraiavam até onde a vista alcançava. Uma profusão de luzes vermelhas acesas e escapamentos que soltavam aquela fumaça sufocante podiam ser vistas e sentidos impassíveis ao longo da avenida. Pensei em ficar nervoso e amaldiçoar a cidade, as pessoas e os carros, mas, ao invés disso, resolvi relaxar e aproveitar o tempo que ficaria parado no trânsito fazendo alguns telefonemas e, se ainda desse tempo, ler algum material que eu ia precisar para a reunião que teríamos na parte da tarde, isto se eu conseguisse chegar ao trabalho, já que eram 10:30hs e eu só tinha andado uma quadra desde a última vez que tinha olhado o relógio. Os carros começaram a rodar a passo de cágado na altura daquele esplendoroso prédio da Casa de Cultura de Israel, que parece sempre vazio, encima do Viaduto da Sumaré. Naquele ponto dava para ver que o trânsito estava totalmente parado, e que não havia nenhuma esperança de alívio. Logo depois de desligar o telefone, tive ímpetos de mudar de rumos, tentar sair da arapuca, mas, para onde olhava, só via carros parados e gente irritada e, assim sendo, resolvi ser fiel a meus princípios e procurei no banco de trás por uma revista que sempre levo para estas emergências e, entre diversas trocas de marchas, li duas reportagens.
Às 10:45hs cheguei no começo da Dr. Arnaldo e me vi encapsulado na passagem que dá acesso à Paulista. Na CBN informavam que “havia uma passeata de professores na Paulista se dirigindo para a Prefeitura no Viaduto do Chá e que a situação tinha se complicado por causa de um carro de som que tombara ao fazer uma curva interditando três pistas da Avenida. O trânsito estava sendo desviado para ruas laterais enquanto os bombeiros tentavam a remoção do veículo e dos feridos, mas, a maior parte do congestionamento era causada por motoristas curiosos que vinham em sentido contrário e que diminuíam a velocidade para ver as “cenas da tragédia”. Pelas informações, eu era um destes motoristas do sentido contrário e pensei que, se tivesse chance, com certeza iria diminuir a velocidade para ver as tais cenas. Depois de tanto tempo no carro, eu certamente merecia ver o que causava o transtorno. Não entendo como é que as pessoas não entendem que o ser humano é curioso, ainda mais quando se trata de observar a desgraça alheia. Eram 11:00hs quando me acerquei do local. Este também é o horário em que costumo comer uma frutinha e logo me lembrei dos pêssegos que tinha trazido de casa. Para tentar não perder nenhum detalhe, ajeitei o fone de ouvido para o caso do telefone tocar, e coloquei o saquinho de pêssegos ao meu lado para que ficassem à mão e, distraidamente, mordisquei um deles que se apresentou macio, levemente perfumado e corretamente agridoce, exatamente como um pêssego deve ser.
Passava apenas um carro por vez pelo estreito corredor entre o caminhão tombado e a calçada da avenida e eu já tinha comido dois pêssegos quando finalmente chegou a minha vez. No entanto, para minha surpresa, um marronzinho me fez sinal para parar e disse para eu dar uma marcha à ré e, acercando-se da janela, informou-me que eu teria que aguardar porque neste exato instante, iria ter início uma tentativa de içar o caminhão, já que todos os feridos tinham sido retirados e atendidos. Sem mais delongas, afastou-se altaneiro, como se tivesse acabado de cumprir sua missão. Parei no local indicado e, saindo do carro, passei a observar os fatos que atazanavam a vida da cidade naquele dia. Pensei em ligar para a CBN e perguntar se eles queriam que eu irradiasse os acontecimentos ao vivo, mas não demorou muito e eu me vi cercado por uma multidão de motoristas e transeuntes que se aboletavam ao meu lado, o que me deixou bastante contrariado. Sendo assim, voltei para dentro do carro, liguei ambos, motor e ar condicionado e fiquei, aí sim, prestando atenção às desastradas manobras do guincho dos bombeiros que tentou, não uma, nem duas, mas nove vezes, colocar o caminhão de pé. Eram 11:15hs quando a multidão se dispersou e eu pude, finalmente, me ver novamente em movimento.
Continua...