quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Mané acorda, o dia está frio e com garoa. Ele devaneia sobre os mais de 180 dias que esta na mesma, mas, mentira, tudo está muito pior. Ele fica estatelado na sala, diante de si, apenas o olhar do Milu para quem, além da casa mais cheia, nada mudou. Mané, Salma e Anuar tomam café em silêncio. O tempo do pão fresco pela manhã acabou, Mané não vai mais todo dia à padaria. Ele joga fora três pães de leite embolorados, Salma o questiona, não comem queijo embolorado, porque não comer também o pão? Samira não está e parece também se sentir só. Ontem a noite passou um WhatsApp: “o que vocês estão fazendo aí?” Mané termina de lavar a louça do café, limpa o banheiro do cachorro e depois sente um vazio. Depois de trabalhar por 45 minutos pergunta pra si mesmo o que vai fazer do resto do dia, será que alguém vai telefonar com algum problema pra resolver? Ele vai ao quarto e mexe na pilha de livros mas nada o anima. Terminou um livro bom e quando isso acontece ele fica enlutado, é difícil escolher outro. Ele deita na cama que ainda está desfeita e cobre-se até às orelhas. O joelho ralado repuxa e dói, ele sente sono, Salma fala alguma coisa sobre itens de consumo faltantes, Anuar pergunta se Samira vem almoçar. De repente, Mané se anima, levanta, arruma sua cama e a de Anuar, põe uma bermuda, passa desodorante antialérgico, veste camiseta, moletom, pega a máscara de ontem pra jogar fora, vai até a porta do quarto e grita: “Onde está o mertiolate que eu tinha deixado no criado mudo? Hoje é dia de trocar os pijamas? O que vai ter de almoço?” 22/09/2020

Nenhum comentário: