quinta-feira, 26 de setembro de 2019

É de tarde. Mané finalmente consegue se recostar e abrir o livro na página que parou ontem. Ele lê as últimas linhas para recuperar o clima da história quando escuta o telefone gemer. Ele olha, é um WhatsApp, uma mensagem de voz. Mané odeia mensagens de voz. A pessoa fica ali pensando no que vai falar, geme, resfolega, até que 15 segundos se tornem duas horas. Mané fica olhando para a mensagem como se fosse uma bomba. Se escutar, vai sentir aquele odiozinho e vai ter que responder. Se não responder a pessoa poderá magoar. Ele pensa, é sábado a tarde, a pessoa deve estar querendo saber o que estão fazendo, o que vão fazer. Então Mané, sem ter ouvido a mensagem, tem uma ideia é começa a digitar uma resposta padrão. “Estamos em casa, vamos ao cinema à noite, etc”, e volta para o livro. Em dois minutos, outra mensagem. De voz. Como um flash, Mané diz “que acha que não, que prefere ir ao cinema mesmo, que liga amanhã”. E assim foi durante uns vinte minutos, Mané foi respondendo às mensagens de voz sem sequer saber o que o interlocutor queria. Incomodado, Mané largou o livro de lado e lamentou-se por não ter lido nem uma linha, agora a pessoa deveria estar achando que ele era louco ou pior, então foi até a geladeira e pegou um dos iogurtes de Anuar e tomou de um trago só. Depois zanzou pela casa vazia e encarou o cachorro para ver se lhe dava alguma luz mas Milu deu-lhe as costas e deitou. Então Mané voltou ao livro, mas as letras estavam embaralhadas e por fim resolveu telefonar para a pessoa que o tinha atormentado mas, nesse momento, Salma ligou e perguntou se ele tinha combinado ir ao cinema com o tal casal, que a moça tinha ligado e pedido que comprasse mais dois ingressos para eles, já que não tinha conseguido terminar a conversa comigo nem saber qual filme iríamos assistir, “o que aconteceu”, Salma estranhou, “você não disse que não queria sair”? 18/8/2019

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